Naji Al Qanni
CAIRO - Durante seus 44 anos de liderança sobre os palestinos, Yasser Arafat combinou alternadamente a oliveira e as armas automáticas, o que lhe garantiu tanto o amor quanto o ódio de seus pares árabes. Tanto inimigos como partidários, no entanto, reconhecem que, ao longo de sua vida, 'Abu Amar' se tornou um símbolo do povo palestino em sua luta por um Estado soberano.
Arafat, que chegou à presidência da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em 1969, foi responsável por uma série de decisões consideradas por muitos equivocadas e que custaram a ele e a seu povo muitos sofrimentos e tragédias.
Uma das mais graves foi permitir que suas milícias interferissem nos assuntos internos de outros estados, como ocorreu na Jordânia e o Líbano.
Nos anos 60, a ingerência das milícias palestinas na vida política e social da Jordânia fez com que o rei Hussein ordenasse, em setembro de 1970, uma feroz ofensiva contra elas, que resultou na morte de milhares de palestinos em apenas duas semanas. O episódio ficou conhecido como 'Setembro Negro'.
As guerrilhas palestinas tiveram que abandonar a Jordânia rapidamente e fugir para o sul do Líbano, depois de uma mediação dirigida pelo então presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, que morreu logo depois.
Uma vez no Líbano, Arafat repetiu o erro ao não impedir que seus comandos interferissem nos assuntos internos do país. A ingerência enfureceu os cristãos libaneses, que iniciaram uma guerra contra os palestinos que envolveu quase todos os grupos libaneses.
Essa guerra civil (entre 1975 e 1989) custou 100 mil vidas e abriu precedente para a intervenção da Síria no Líbano, que perdura até hoje e é um dos conflitos que envenenam a região.
As contínuas intromissões de Arafat começaram a render antipatias entre os países árabes chamados moderados e à causa palestina, sagrada para todos os árabes, e que rapidamente começou a se transformar em pouco mais que um discurso oportunista.
Em 1978, a assinatura dos Acordos de Camp David entre o presidente egípcio Anuar Sadat e Israel e o posterior reconhecimento do estado de Israel foi um revés para Arafat, que se negou a seguir os passos de Sadat, mas teve que voltar atrás anos depois.
O líder palestino, junto com o iraquiano Saddam Hussein e o sírio Hafiz el Assad, foi, então, responsável pelas pressões que levaram à expulsão do Egito durante dez anos da Liga Árabe.
A neutralização do Egito no cenário árabe animou Israel a invadir o Líbano em junho de 1982, sitiando Beirute por 86 dias. O 'Sítio de Beirute' obrigou Arafat e suas guerrilhas a sair do território libanês e a começar uma nova diáspora por vários países árabes.
A saída das milícias palestinas do Líbano facilitou também o massacre de Chabra e Chatila, os dois campos de refugiados palestinos onde comandos religiosos libaneses, apoiados por militares israelenses, mataram milhares de pessoas. Ariel Sharon, hoje primeiro-ministro de Israel, era, então, ministro da Defesa.
Uma das piores jogadas da vida política de Arafat foi seu apoio a Saddam Hussein quando o iraquiano determinou a invasão do Kuwait em 1990, o que custou a ele o isolamento internacional e o fechamento da torneira financeira dos ricos estados petroleiros do Golfo Pérsico.
Arafat e a OLP, assim como os palestinos dos territórios ocupados, perderam uma fatia fundamental de sua receita.
A assinatura dos Acordos de Oslo por Arafat em setembro de 1993 sem consulta prévia a outras facções palestinas provocou o rompimento dos palestinos entre moderados e radicais, que resultou no exílio dos últimos em países como Síria e Líbano.
Os últimos anos de intifada e do confuso papel de Arafat nos atentados também fizeram com que o líder palestino perdesse credibilidade no cenário internacional, especialmente com relação aos Estados Unidos, que passaram a considerar sua substituição como interlocutor imprescindível para alcançar a paz na região.
Agência EFE