Longa agonia de Arafat durou treze intermináveis dias em Paris

PARIS .- A longa agonia do presidente palestino, Yasser Arafat, durou treze intermináveis dias no hospital militar de Percy, nos arredores de Paris, onde morreu na madrugada de hoje, aos 75 anos.

A ‘forte gripe’ com a qual oficialmente chegou à França se tornou um ‘coma profundo’ e a notícia de sua morte, anunciada e desmentida em várias ocasiões durante o tempo que durou sua hospitalização, já era esperada no mundo todo.

O líder da Autoridade Nacional Palestina (ANP) morreu sem que os médicos, pelo menos oficialmente, tenham revelado a causa da doença que o obrigou a deixar seu quartel-general da Muqata em Ramala (Cisjordânia), onde vivia desde 2001 confinado por Israel.

Arafat foi internado em 29 de outubro no Percy, em cujas portas dezenas de pessoas se reuniram a cada noite durante todo o tempo que permaneceu hospitalizado, para acompanhar o histórico líder, símbolo da luta do povo palestino durante 40 anos.

Apenas dois estavam ali na madrugada de hoje, quando foi anunciada oficialmente sua morte, recebida com lágrimas nos olhos.

A agonia de Arafat começou com uma aparente melhora. Depois que, após dias sem ingerir alimentos, voltou a comer e que os exames iniciais descartaram a leucemia, como indicou o primeiro boletim médico oficial, emitido no dia 2, seus assistentes se mostravam otimistas e parecia que o homem com fama de lutador incansável superaria aquele que foi seu último combate.

Mas, no dia 3, inesperadamente, o estado do líder palestino sofreu uma brusca deterioração e teve que ser internado na unidade de tratamentos intensivos, o que desatou os primeiros rumores.

A informação de que Arafat estava inconsciente foi desmentida por seus colaboradores, embora fontes médicas anônimas tenham dito nesse mesmo dia que ele entrou em coma e que era muito provável que não saísse dessa situação. Inclusive chegaram a falar de ‘morte cerebral’.

No dia 4, o mesmo em que o presidente francês, Jacques Chirac, o visitou no hospital, os serviços médicos anunciavam que Arafat estava vivo horas depois de meios israelenses declararem sua morte.

Já no dia 5, o entorno de Arafat reconhecia que seu líder estava em coma, ‘entre a vida e a morte’, o que não constava nos informes médicos divulgados ‘em respeito à discrição exigida’ por sua esposa, Suha, que controlava a pouca informação oficial difundida sobre a saúde de seu marido.

Enquanto isso, continuava a tensa espera e a escassez de notícias oficiais, a agonia foi enturvada pelo confronto entre Suha e os mais diretos colaboradores de Arafat, os quais ela acusou de querer ''enterrar em vida'' seu esposo para ''herdar seu poder''.

Finalmente, a disputa foi resolvida, pelo menos aparentemente, a favor da direção palestina, cujos ‘pesos pesados’ viajaram a Paris para visitar, no dia 9, Arafat, cujo estado se agravou essa madrugada, quando entrou em um coma ‘mais profundo’, segundo o primeiro boletim médico elaborado sem a supervisão de Suha.

Depois de vê-lo e reunir-se com os médicos, um dos quatro membros da delegação palestina, o ministro de Exteriores, Nabil Shaath, explicava que Arafat estava ‘muito mal’ mas que ‘seu coração, seus pulmões e seu cérebro ‘ainda’ funcionavam e que estava ‘vivo’, enquanto descartava qualquer tipo de eutanásia.

Nesse mesmo sentido se expressou na quarta-feira a máxima autoridade do islã da Palestina e amigo pessoal de Arafat, o imã Taisir Al Tamimi, que viajou para Paris para contribuir com consolo espiritual e acompanhá-lo na fase final de sua vida.

Enquanto se anunciava que Israel deu sua aprovação para que fosse sepultado na Muqata e que o Egito confirmava que os funerais públicos acontecerão no Cairo, Al Tamimi insistia que ele não seria desligado do respirador artificial que o mantinha com vida.

Algumas horas depois, às 0h30 (hora de Brasília) da quinta-feira, Arafat morria nos arredores de Paris, longe de sua terra e sem ver cumprido seu sonho de criação de um Estado palestino. Agência EFE

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[08:51] [11/11/2004]