|
|
Yasser Arafat, o decano dos líderes árabes
CAIRO - O dirigente palestino Yasser Arafat, morto na madrugada desta quinta-feira, era o decano dos líderes árabes, com quem em muitos casos manteve uma relação de amizade, em outros de desconfiança e em alguns de hostilidade. Desde que assumiu a liderança palestina, em 1969, Abu Amar, como é conhecido pelos muçulmanos, teve oportunidade de lidar com diversos presidentes e chefe de Estado árabes, que, ainda que o respeitassem de maneira formal como símbolo da causa comum, nunca recuaram na tentativa de influir em seus desígnios políticos. O rei Hassan II do Marrocos, o ex-presidente da Argélia Chadli Benyedid, o atual chefe do Estado tunisiano, Zine al-Abidine Ben Ali, e seu antecessor e pai da independência da Tunísia, Habib Burguiba, figuraram entre os principais aliados de Arafat no Magrebe, uma região com pouca presença da diáspora palestina. Hassan II foi intermediário entre Arafat e EUA, Benyedid lhe ofereceu com freqüência que convocasse na Argélia o Conselho Nacional Palestino (Parlamento no exílio), e Burguiba lhe permitiu que instalasse na Tunísia seu quartel-general quando, em 1983, foi expulso do Líbano por uma revolta de forças dissidentes palestinas, apoiadas por Síria e Líbia, e com a conivência de Israel. Diferente foi a relação de Arafat com o líder líbio, Muamar al Gadafi, que, ao chegar ao poder, em 1969, converteu-se em defensor contumaz da causa palestina, mas, depois da assinatura dos acordos de paz de Oslo, em 1993, distanciou-se radicalmente de seu colega palestino. Após anos sem se falar, Arafat e Gadafi conversaram em outubro por telefone - motivados por um programa de televisão -, no último contato entre os dois governantes. Além disso, teve uma relação conflituosa com o falecido presidente sírio Hafez Al Assad, que acolheu em seu país grupos palestinos radicais como a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), críticos das políticas de Arafat. A Síria abriga em seu território milhões de refugiados palestinos, e o destino dessa camada da população foi com freqüência o cerne da discórdia entre Arafat e Al Assad. Também no Oriente Médio a diáspora palestina foi o obstáculo para uma relação fluente entre Arafat e os dirigentes do Líbano. E em igual medida o receio predominou em seus vínculos com o rei Hussein da Jordânia, país cuja população é de maioria palestina. O movimento Al Fatah, liderado por Arafat, ganhou destaque na revolta palestina ocorrida na Jordânia em setembro de 1970 (conhecida como ‘Setembro Negro), que custou a vida de milhares de pessoas e esteve prestes a tirar o trono do monarca. Em contrapartida, o líder palestino sempre encontrou apoio - pelo menos até a crise e a Guerra do Golfo, de 1991 - nas ricas monarquias petrolíferas do Golfo Pérsico, sobretudo Arábia Saudita e Kuwait, que o apoiaram financeiramente. Depois da relação que o uniu com o presidente egípcio e líder do moderno pan-arabista Gamal Abdel Nasser (1952-1970), e as turbulências com o sucessor dele, Anuar Sadat (1970-1981), pela assinatura do tratado de paz entre Egito e Israel, Arafat mantinha com o atual presidente egípcio, Hosni Mubarak, uma relação ambígua. Embora Mubarak sempre tenha tentado consolidar-se como mediador entre os palestinos, por um lado, e americanos e israelenses, por outro, em círculos próximos de Arafat no Cairo ele é acusado de ter desdenhado de seu antigo amigo desde que o veterano dirigente palestino deixou de ser considerado interlocutor pelos Estados Unidos e Israel. Arafat e a causa palestina tiveram, por último, seu mais firme defensor no deposto presidente do Iraque, Saddam Hussein, sempre disposto a oferecer o exército iraquiano, que, até a queda do regime local, em abril de 2003, era considerado, pelo menos no papel, um dos mais poderosos da região. A relação entre Saddam e Arafat também sofrera, no entanto, uma mudança considerável com os novos tempos; um giro que se viu refletido nos protestos do presidente palestino contra a Guerra do Golfo, em contraste com a timidez de sua atitude - que em alguns círculos foi qualificado de ‘silêncio cúmplice’ - em relação à última invasão do Iraque. Agência EFE
Internacional
|