Caso dos meninos castrados no Pará pode ter ligação em outros estados

BELÉM - Os três dias de julgamento do caso dos meninos emasculados em Altamira, no Pará foram acompanhados por representantes do Ministério da Justiça, da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) e pela procuradora Federal dos Direitos do Cidadão, Maria Eliane Menezes. Eles recolheram informações e provas sobre outros 14 casos que não foram incluídos no processo e vão encaminhá-las ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), do Ministério da Justiça.

Segundo o assessor do ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Douglas Martins, esse encaminhamento pode resultar em novas investigações e levar os casos a julgamento. O governo brasileiro responde por esses crimes na Corte Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), por causa das falhas na apuração e pelo descaso das autoridades com a série de assassinatos que ocorreram entre 1989 e 1993. Os crimes tinham como característica comum a crueldade e, principalmente, a castração das vítimas.

Na época em que surgiram os primeiros casos, a polícia local insistia na versão de que os crimes eram cometidos por uma única pessoa, chamada de "monstro de Altamira", apesar de um dos meninos atacados ter afirmado aos policiais ter visto mais de uma pessoa ao acordar após cortarem seus órgãos genitais.

Das 19 crianças vítimas, sobreviventes ou não, apenas sete inquéritos policiais foram abertos e apenas um chegou a ser concluído. Foi o de Jaenes da Silva Pessoa, castrado e morto aos 13 anos, em 1992. O corpo de outra vítima, encontrada 46 dias após seu desaparecimento, foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) de Belém, de onde desapareceu antes que o exame cadavérico fosse feito.

De acordo com o ouvidor da SEDH, Pedro Montenegro, com as novas investigações podem surgir novos casos e envolvidos. A suspeita é que as execuções em Altamira possam ter ligações com as ocorridas em outros estados, como Maranhão, Paraná e Goiás. No estado maranhense, foram registradas 22 execuções muito semelhantes com as de Altamira. As emasculações no Maranhão começaram em 1993, justamente quando os casos no município paraense - por já terem ganhado repercussão - começaram a diminuir.

A mulher considerada líder da seita Lineamento Universal Superior (LUS), Valentina de Andrade, que estaria por trás dos rituais em que se usava os órgãos genitais dos meninos, foi acusada no Paraná de envolvimento no desaparecimento de crianças.

De acordo com a procuradora Maria Eliane, as novas investigações devem acontecer num esquema de colaboração entre a Polícia Federal e as polícias estaduais para agilizar os trabalhos. Com isso, ela espera que mais dois casos ocorridos em Altamira e que não foram incluídos por má vontade de autoridades resulte em um novo processo.

Por volta das 11h da noite, o Tribunal do Júri, em Belém, anunciou o veredicto condenando o ex-policial militar Carlos Alberto Santos a 35 anos de prisão e Amaílton Gomes, filho de um comerciante e fazendeiro local, a 57 anos de prisão. Os dois réus vão cumprir pena na Penitenciária de Americana, em Belém, em regime fechado. Na próxima terça-feira (2), outros dois acusados serão julgados pelos mesmos crimes. São os médicos Césio Brandão e Anísio Ferreira.

O julgamento mais aguardado é o da mulher considerada fundadora da seita Lineamento Universal Superior (LUS), Valentina de Andrade, que estaria por trás da série de assassinatos e desaparecimentos de crianças. Com a condenação de Amaílton e Carlos Alberto, o juiz Ronaldo Valle não descartou a possibilidade dos réus tentarem fugir antes do julgamento. Informações da Agência Brasil.

Brasil


[13:51] [30/08/2003]