Júlio Almeida garante mais uma prata para o Brasil na pistola

Duilo Victor, Agência JB

RIO - No dia em que os Jogos Pan-Americanos do Rio tiveram o primeiro brasileiro medalhista no tiro esportivo - prata com o carioca Julio Almeida na pistola de ar 10 metros - voluntários que cuidaram do palco da competição aprenderam uma nova versão para o som do tiroteio. Ontem, desde 9h, quem estava no Centro Nacional de Tiro, em Deodoro, ouviu centenas de disparos de carabina, pistola e escopeta. A cada estampido, o espírito esportivo se sobrepunha ao medo da morte para Everton Cunha, 19 anos.

- Há dois anos, quando o Comando Vermelho tentou invadir a comunidade onde moro, tirei dois baldes de cápsulas de bala do terraço da minha casa - conta o voluntário, morador da Favela do Jacaré, em Santíssimo, hoje tomada pelo Terceiro Comando. - Estava no meu quarto ouvindo música quando vi meu pai engatinhando e os clarões no céu.

Everton está desde a semana passada na preparação das instalações esportivas de Deodoro com outros 840 colegas de voluntariado, a maioria força de trabalho do Exército. Sitiada pelo poder das armas, a comunidade de Jacaré só tem uma entrada carro. Todas as outras foram bloqueadas por pedras.

- De cinco anos para cá ficou bem pior, é comum passar ao lado de bandidos armados - continua o rapaz. Perguntado sobre como se sentia ao ouvir o barulho das escopetas, desta vez em missão de paz, Everton completa: - Agora também é o tiro, mas sem o medo.

Acompanhando a conversa, o voluntário Tiago Marques, também 19, mora na Favela do Foice, em Guaratiba. Diz que, fora de Deodoro, o barulho da bala é para impor o que ele chama de lei da favela.

- Se vacilar pode morrer. Este ano encontraram um cemitério clandestino do tráfico lá no Foice.

No clima do Pan, Tiago contou ainda o caminho que quer para a filha que nasceu no início do ano:

- Vou aconselhar que ela estude, coisa que não fiz tanto. Se ela seguir o caminho do esporte, darei apoio.

Ao lado de Tiago, o voluntário Rafael Germano, 19, entrou na conversa e contou que o esporte e formação religiosa é o caminho para fugir da vida do crime.

- Já perdi vários colegas de pelada por causa de arma de fogo. Ouvir tiro no Pan é uma maravilha.


[ 15:19 ]   17/07/07