Renata Machado, Agência JB RIO - O choro intercalado aos sorrisos no lugar mais alto do pódio, ao ouvir o hino nacional, era a realização de um sonho e a consagração de um atleta. O primeiro ouro do Brasil no Pan veio do tatame, dos chutes de um lutador do taekwondo (categoria até 68 kg) e da vida, que enfrenta dificuldades desde criança. Diogo Silva, de 26 anos, derrotou o peruano Peter Lopez na final, ontem, por 3 a 1, e não conteve as lágrimas. A emoção foi de alívio por ter finalmente chegado ao topo após derrotar muitas adversidades na vida. - Naquele momento, passou pela minha cabeça tudo o que eu vinha fazendo em competições como o Pan e Olimpíada. Olhava os campeões e ficava pensando quando seria a minha vez. Quando tocou o hino, senti que essa era a minha hora - disse Diogo, bronze em Santo Domingo-2003 e quarto lugar em Atenas-2004. - Foi uma conquista pessoal e profissional muito grande, porque vinha batalhando em competições internacionais e estava sempre batendo na trave. Chegava na semifinal e não passava. Para se consagrar diante de uma empolgada e barulhenta torcida, que quase preencheu os 3.300 assentos do Pavilhão 4A do Riocentro, o atleta teve de desistir de uma promessa para apostar em um sonho. Sem patrocínio, no início do ano tirou R$ 5 mil da própria poupança, que seria destinada a um presente para a sua mãe, e investiu em treinamentos e competições no exterior. A meta era chegar arrebentando no Pan e na melhor forma: - Estava há dois anos economizando dinheiro para comprar um carro para a minha mãe. Ela é manicure e pega de duas a três conduções para ir de casa em casa. Não deu, mas o investimento em mim seria importante para, futuramente, poder colher os frutos - justificou. Ontem, Diogo viu a mãe, Tel, pela primeira vez depois de seis meses em treinamento intenso para a competição, divididos entre Belo Horizonte e Londrina, onde vive num sobrado com mais nove atletas. Morador de Campinas, o lutador mudou-se para a cidade paranaense depois de dois anos sem treinar, por falta de academia. Depois de Atenas, o salário de R$ 1 mil que recebia da Confederação Brasileira de Taekwondo minguou para R$ 600. A ajuda, porém, é incerta e este ano a situação piorou. O pagamento que atrasava todo mês passou a ser feito com até três meses de atraso. A bolsa-atleta de R$ 2.500 que recebia do governo não foi renovada. Diogo estava competindo no exterior e perdeu o prazo: - No início do ano, os lutadores da seleção pediram ajuste salarial e melhores condições, mas o pedido foi ignorado. Para o presidente da confederação (Yongmin Kim), os atletas estão em segundo plano. Apesar da falta de apoio, Diogo pulou os obstáculos que ia encontrando pela vida. Nascido em São Sebastião (SP) e criado em bairros pobres de Campinas (Jardim Roseira e Padre Manoel da Nóbrega), o atleta conseguiu manter-se longe da vida criminosa e quer um dia ensinar o esporte. - No meu bairro, nosso maior exemplo era quem segurava uma arma, que era quem tinha poder e grana. - O taekwondo é a minha vida. Por causa dele que eu larguei a rua.
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