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Mercado de carbono prospera
Juliana Anselmo
da Rocha
O Brasil está entre os grandes negociadores
de créditos de carbono no mercado criado pelo Protocolo
de Kyoto, em 1997, e que movimenta R$ 10 bilhões ao
ano. São 101 projetos inscritos sob o Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo (MDL) - uma das três modalidades de investimento
sugeridas no documento.
Pelo MDL, nações ricas fomentam
iniciativas verdes nas pobres, evitando emissões ao
patrocinar o uso de tecnologias limpas e modernas. Os
grandes vendedores de créditos de carbono, além do Brasil,
são a Índia e a China, que têm 242 e 84 projetos inscritos,
respectivamente. Os grandes compradores estão na Europa.
Depois de certificados por uma comissão interministerial,
as empresas fazem acordos bilaterais que autorizam o
débito dos créditos comprados das metas de redução acordadas
em Kyoto.
Werner Kornexl, analista de financiamento
de carbono do Banco Mundial, esclarece que "o maior
potencial brasileiro está no manejo de aterros sanitários".
O primeiro projeto aprovado foi no Aterro de Adrianópolis,
em Nova Iguaçu. Com duração prevista de 21 anos, canalizará
o metano expelido pela matéria em decomposição, gerando
eletricidade com sua queima. Serão evitadas o equivalente
a 14 milhões de toneladas de carbono na atmosfera, pois
o gás tem potencial de aquecimento 21 vezes maior que
o CO2.
Melhorias na infra-estrutura energética,
como a substituição de termoelétricas por hidrelétricas,
ponto forte da China e da Índia, não são lucrativos
aqui, já que a matriz brasileira é essencialmente limpa.
- O mercado de carbono foi uma das
formas idealizadas para que as metas estabelecidas em
Kyoto fossem alcançadas a custos baixos - explica Roberto
Schaeffer, pesquisador da Coppe-UFRJ e um dos autores
do relatório do Painel Intergovernamental para a Mudança
Climática (IPCC).
Críticos da idéia acusam-na de adiar
o momento dos países industrializados, com responsabilidade
histórica na mudança climática, de reduzirem as emissões
em seu território - principalmente pela diminuição da
dependência de combustíveis fósseis para geração de
energia. Schaeffer observa que "sendo um fenômeno global,
não importa onde são impedidas as emissões. O impacto
será percebido em todo o planeta".
- A importância do mercado de carbono
é grande e o IPCC avalia como positivos os primeiros
resultados - completa Emílio La Rovere, pesquisador
da Coppe-UFRJ e colaborador do relatório do IPCC. -
Embora esteja na fase inicial, já se provou uma boa
oportunidade de negócio e grande ajuda nas negociações
da Convenção do Clima.
Também existem iniciativas voluntárias,
como o pregão de carbono de Londres e Chicago. Contudo,
os créditos negociados ali, carentes de certificação
obrigatória, não podem ser debitados da redução de 5,2%
em relação aos índices de 1990 nas emissões. Hoje, o
maior mercado movimenta R$ 50 bilhões ao ano: é o Esquema
de Comércio de Emissões da União Européia, iniciativa
regional incentivada pelo protocolo
- Já existe uma forte base para
o pós-Kyoto. Não há risco desse mercado desaparecer
- garante Carlos Nobre, pesquisador do Inpe e autor
do relatório do IPCC. - É provável que as as metas de
redução sejam mais ambiciosas.
Kornexl concorda, mas observa que
para impedir a subida de temperatura além do limite
de 2 graus, considerada perigosa, é preciso que o mercado
triplique.
- Mundialmente, são negociados R$
60 bilhões em créditos. Precisariam ser R$ 200 bilhões
para causar impacto real no aquecimento global - admite.
- Não é impossível. Ao contrário, é um futuro realista.
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