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RIO - A Viradouro jogou bonito na Sapucaí. Com alegria, euforia e muita beleza, a escola contagiou o público com um jogo envolvente e colocou em xeque as outras escolas. O grande destaque da noite ficou por conta da bateria, que arrancou aplausos da arquibancada, no chão ou em cima do carro em movimento, surpreendendo por sua organização e desenvoltura. A alegoria representava um tabuleiro de xadrez, enquanto os músicos simbolizavam as peças do jogo.
A Viradouro apostou alto - e se deu bem. Deixou a Avenida como forte candidata ao título de 2007, aclamada pelo público com gritos de "É campeã!". Durante todo o desfile soube manter todos em suspense, como um jogador inveterado diante do giro da roleta ou da carta certa no pano verde.
As surpresas se sucederam a cada ala ou carro, de raro acabamento. Logo de cara, mostrou ao que veio com a porta-bandeira trajando saia em formato de roleta iluminada, de onde saíam chispas de fogo. A bateria fantasiada de peças de xadrez em cima do carro em forma de tabuleiro foi idéia de mestre Ciça, logo aprovada pelo carnavalesco Paulo Barros, que ganhou fama na Unidos da Tijuca com as chamadas alegorias vivas. E que prefere não alimentar o favoritismo.
"Ainda é cedo para comemorar", disse ele, para quem a escola desfilou muito bem, carregada na criatividade, e "cumpriu seu dever". Mas Paulo é considerado um carnavalesco "perfeccionista", e confessa que ainda falta algo para um desfile melhor. Bem melhor.
Mangueira, Mocidade e Vila fazem desfiles corretos
Diz o ditado que, quem não arrisca não pode petiscar. A Estação Primeira de Mangueira, terceira escola a entrar na Avenida empolgou com o enredo "Minha pátria é minha língua, Mangueira meu grande amor. Meu samba vai ao Lácio e colhe a última flor". Mas não surpreendeu. A comissão de frente homenageou o intérprete Jamelão, que não foi à Avenida.
Em compensação, um dos ícones da verde-e-rosa, Beth Carvalho, contrariou as expectativas e foi à Passarela do Samba, depois de acertar com a direção da escola lugar em um carro alegórico, já que, por estar com problemas de coluna, não poderia sambar no chão. Mas acabou barrasa: - Não sabia nem em que carro iria desfilar, ninguém me orientava - disse a cantora, decepcionada. "Até que me indicaram um carro, eu fui lá e um senhor me impediu de entrar".
O descompasso com Beth foi o maior contratempo enfrentado pela verde-e-rosa na avenida. O presidente da Mangueira, Percival Pires, disse que houve desencontro e que Beth é importante para a escola.
Antes da Mangueira, desfilou o Império Serrano, do alto de seus nove títulos em sua história de 60 anos. O enredo Ser diferente é normal, foi uma aula de desfile e outra de cultura da arte (Aleijadinho, Frida Kahlo, Albert Einstein, Bispo do Rosário). tudo contra o preconceito. A bateria do Império deu mais um show particular pelo seu andamento - principalmente pela seção de agogós, marca da escola. À frente dos ritmistas de mestre Átila, uma rainha: Quitéria Chagas.
O encanto da mulata, um encanto da raiz, deixou as concorrentes para trás. Campeã do Grupo de Acesso do ano passado, a Estácio de Sá, que abriu o primeiro dia do Grupo Especial, apostou na reedição do samba O tititi do sapoti. Mas acabou sendo uma apresentação fria, um castigo do sorteio: geralmente, a escola que abre o carnaval não "esquenta" a arquibancada. A Estácio mostrou que não sonha com mais do que a permanência no Grupo Especial - o calor foi implacável com os componentes da escola: uma baiana desmaiou e um integrante da comissão de frente precisou ser retirado, no meio do desfile.
Última escola a entrar na avenida, a Vila Isabel fez um desfile sob medida para levantar o bicampeonato. Mas, apesar das alegorias luxuosas, não chegou a entusiasmar as arquibancadas. Um dos destaques do desfile foi o carro alegórico de super-heróis de histórias em quadrinhos, que era 'puxado' por um super-homem gigante. O refrão simples - 'Samba não tem preconceito/ brancos, negros, iguais/ um beijo da Vila Isabel princesa/ metamorfose assim se faz'- foi fácil de decorar, mas o público, depois de mais de sete horas de desfiles, acabou não se empolgando o suficiente para cantar com a escola.
Já a Mocidade surpreendeu positivamente os que vêm acompanhando a escola nos últimos anos. Há muito a escola de Padre Miguel não fazia um desfile tão correto. E a criatividade do carnavalesco Alex de Souza compensou a falta de dinheiro e estrutura para um desfile brilhante. Mas também para a Mocidade faltou algo.
Nenhuma das concorrentes de domingo conseguiu tirar da Viradouro o gostinho de ter sido o destaque da primeira noite de desfiles. A escola de Niterói levou para a avenida uma equipe capaz de vencer o jogo e soube armar sua melhor jogada para vencer. Levou à sério o prazer de arriscar, suportando a incerteza e a tensão, abrindo o jogo para conhecer seu destino. Com criatividade e originalidade construiu um universo mágico que mobilizou a todos que assistiram e, consequentemente, viveram todas nuances que um jogo vibrante proporciona.
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