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Uma ala tão essencial quanto anônima

 

Agência JB

RIO - A ala que garante a harmonia da Sapucaí quase nem é notada. Uma gigantesca agremiação de garçons, garis, médicos, entre outros trabalhadores, rala discretamente para que o samba não atravesse no quesito serviço.

A aposentada Marinalva Santos é a responsável por um dos banheiros do Sambódromo. Orienta os foliões apertados e mantém a limpeza do lugar. Gosta de trabalhar no carnaval, até porque ganha um extra, R$ 200 por cinco dias.

- O chato - conta Marinalva - é que depois de 1h da madrugada ninguém consegue mais acertar o vaso sanitário.

A falta de pontaria dos foliões faz com que o serviço tenha que ser refeito com mais freqüência. Outras ocorrências, porém, exigem que o balde d'água de Marinalva tenha outra serventia.

- Uma vez um casal aproveitou uma distração minha e entrou no reservado. Já estava uma fila enorme quando me avisaram que eles estavam lá dentro no maior amasso. Olhei por baixo da porta e vi os pezinhos se mexendo. Nem falei nada, só "taquei" um balde d'água em cima deles – conta Marinalva, que chega no Sambódromo às 16h, sai às 6h e ganha de lanche um pãozinho com guaraná.

Esse tipo de problema nunca aconteceu com Lucas Gonçalves Moreira, um dos garçons dos camarotes do setor 2. Ou pelo menos diz que não, já que discrição é uma das exigências que se faz aos profissionais que garantem a boa vida dos foliões endinheirados.

- O que rola mesmo é muita bebedeira e eventuais desentendimentos provocados pela manguaça.

E nem pode ser dada a desculpa de beber de sem ter comido nada. No cardápio do setor, rolinhos de rosbife com molho de alcaparras, trouxinha de camarão, boullabaise e sushis e sashimis à vontade. E, claro, uísque, espumantes e rios de cerveja. Lucas conta que há uma garrafa de uísque para cada convidado.

- Esse cálculo inclui aqueles que nem bebem e os outros que bebem por eles –explica o funcionário, que fatura R$ 200 por dia de Sapucaí.

A féria de Monique Rangel, 21 anos, depende do número de pessoas que qjerem posar para fotos de lembrança ao lado da escultural mulata em trajes, bem, trajes de samba. Ao lado de uma amiga, igualmente mulata, e igualmente numa fantasia com pouquíssimo pano, ela posa, em média, para 200 fotos por noite. O registro custa R$ 30 e ela fica com 10%. Não é um trabalho tão fácil como se pode imaginar. Como se pode também, imaginar que a quantidade de cantadas é proporcional ao número de retratos. Perdeu a conta das gorjetas que inseriram em seu biquíni. Momentos antes, teve que tirar, com delicadeza, a mão de um gringo que colou em seu bumbum.

- A gente dá um sorriso e, carinhosamente, tira a mão do cara de lá. Os piores são os africanos. São muito safados – conta, aos risos, a mulata que ainda ia desfilar na Porto da Pedra.

Alfredo Tucci trabalha há 30 anos na Sapucaí. Desde a época em que tudo tinha que ser montado e desmontado todos os anos. Fica de plantão num dos seis postos médicos e atende os mais variados casos. Não, bebedeira não é dos mais freqüentes. Ele conta que são os pequenos cortes que dão mais trabalho. Em segundo lugar, dor de cabeça. E o álcool nem é o culpado dessa vez. Alfredo diz que a mistura calor, desidratação e alimentação escassa causam as dores.

- Geralmente são as pessoas que trabalham nas escolas. Ficam tensos, preocupados para que tudo dê certo. Não comem, não bebem água e ficam embaixo desse sol. Temos que ter um estoque de anlgésicos – conta Alfredo, que estima em 250 o número de atendimentos diários nos seis postos.

[ ]   19/02/2007