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Felipe Sáles A Vila Militar e os arredores do bairro de Deodoro transformaram-se numa praça de guerra, com direito a atentados com carro bomba, ataques com morteiros e até incursões do Exército no Morro do Capim, na Área de Proteção Ambiental de Gericinó. A região transformou-se no Tudistão, país fictício criado pelo Centro de Instrução de Operações de Paz (CIOpPaz) para treinar militares que participam de missões de paz das Nações Unidas, e que na última semana foi também o país sede do primeiro Curso de Jornalistas em Áreas de Risco - prestes a ser exportado para Portugal. O treinamento foi elaborado a partir de técnicas de pacificação de territórios desenvolvidas no Haiti - estudadas por americanos e europeus - e que poderiam ser transportadas para quaisquer missões - inclusive no Rio, dependendo apenas de questões jurídicas e de vontade política. O próprio ministro da Defesa, Nelson Jobim, admitiu diversas vezes que a missão brasileira no Haiti é um laboratório para possíveis ações do Exército no Rio. Parte dos soldados que trabalharam na missão de paz, inclusive, estão desde 13 de dezembro no Morro da Providência, onde o Batalhão de Engenharia está reformando escolas e construindo casas blindadas. Mas, no caso do Tudistão, a situação é mais complexa. O país é disputado por dois partidos radicais e conflagrado numa guerra civil entre terroristas islâmicos e guerrilheiros marxistas. No teatro de operações criado para o curso, 16 jornalistas de todo o país e até do exterior acompanharam as tropas em incursões na mata e invasões de morros. Os tiros eram de festim, as mortes eram indicadas por infravermelhos, mas as técnicas são as mesmas usadas nas missões brasileiras. Armas daqui como no Haiti Algumas das técnicas demonstradas vêm sendo lapidadas no Haiti, onde o Brasil coordena a missão de paz da ONU desde 2004. No treinamento protagonizado para o curso, foram ensinadas técnicas básicas de invasão de territórios e formas de auto-proteção durante as coberturas de grandes conflitos. Para o jornalista Humberto Trezzi, do Jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul - que já cobriu insurreições em locais como o Timor Leste, Angola e Colômbia - o Rio foi o local mais perigoso onde já trabalhou. - O Rio vive uma guerra civil não-ideológica - argumenta Trezzi. - Em outros conflitos, a idéia de território é mais consistente, mas no Rio você pode ficar no meio do fogo cruzado em qualquer lugar. No Haiti, as gangues atacam a polícia com fuzis e até anti-aéreas ponto 30 - como as 23 apreendidas no Rio desde o ano passado, fora a ponto 50, encontrada no Morro Dona Martha. Para os militares, porém, as semelhanças são restritas. - Não é atribuição do Exército, mas as técnicas seriam as mesmas - explica o coronel André Novaes, comandante do CIOpPaz. - Tudo depende de amparo jurídico, já que não temos poder de polícia.
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