10 de fevereiro de 2008
 
O Rio de dom Casmurro

A Igreja de Santo Antônio dos Pobres, construída em 1811, continua imponente na esquina da Rua do Senado com Inválidos, no Centro do Rio. Às terças-feiras, a irmandade distribui 7 mil pães entre os pobres, mas, antes, é preciso assistir à missa. Machado de Assis e seu personagem Bentinho ficariam sensibilizados. Aos cem anos da morte do maior escritor brasileiro, as indicações geográficas do livro Dom Casmurro, escrito em 1900 - e onde reina Bentinho - servem como roteiro para quem quiser conhecer o Rio da época do Segundo Reinado.

O romance começa com Bentinho já adulto, contando como ganhou o apelido de dom Casmurro. Ao lembrar sua infância e juventude, percorre o bairro do Engenho Novo (Zona Norte), onde morava depois que mandou reproduzir a casa de sua infância, na Rua de Matacavalos, hoje rebatizada de Riachuelo. Bentinho vai à Tijuca e ao Alto da Boa Vista, onde passou momentos românticos com a mulher, Capitu, com olhos de cigana oblíqua e dissimulada, segundo a prima Justina.

Algumas casas antigas resistem na Rua do Riachuelo - como a de número 354 - e outras próximas aos Arcos, referência também em Dom Casmurro. "A casa não era logo ali, mas muito além da Rua dos Inválidos, perto da do Senado", dizia Bentinho no livro.

- Se Machado de Assis visse a cidade hoje sentiria um grande estranhamento - acredita o imortal Domício Proença Filho, grande estudioso do escritor e autor de Memórias póstumas de Capitu.

Para Domício, Machado e o próprio Bentinho não reconheceriam o Flamengo, que ganhou o Aterro; e o Cosme Velho, pelos prédios que substituíram as antigas casas, inclusive a do escritor.

- A Gamboa ainda teria algo que não o chocasse. Mas o Rio daquele tempo era bastante inóspito. Os escravos jogavam dejetos na Praia do Flamengo e as ruas eram de terra - descreve Domício.

Caindo aos pedaços

Hoje, sobrados com azulejos de época tentam sobreviver à destruição que avança a passos largos no Centro. O guardador de carros Antônio Carlos Linhares, o Carlão, nascido naquele trecho do Rio, fica indignado com o desleixo das autoridades.

- Veja aquele prédio, que já foi da Universidade Federal do Rio de Janeiro e onde estudou o (ex-deputado e ex-líder estudantil) Wladimir Palmeira. Está caindo aos pedaços. Aqui, na Rua do Senado com Ubaldino do Amaral, havia a primeira casa de cômodos do Rio, que está fechada - ensina Carlão, apontando para a placa, na esquina, onde se lê: "Rua do Senado, Districto Santo Antônio".

O personagem Bentinho também passava pelo Campo de Santana, ou, como era chamado, Campo da Aclamação. Atualmente, não há mais belas figuras, como descreve Machado de Assis, mas gente do povo a conversar, dormir e se esquecer da vida sentada nos bancos. Um ou outro quiosque, postes de luz do Rio Antigo e a sede da Fundação Parques e Jardins, erguida em 1880. No prédio ainda está escrito na pedra: "Arborisação e jardim". Apesar do belo parque, há que se ter cuidado com a bolsa.

- Adoro trabalhar aqui - diz o supervisor de jardinagem Moacir Luiz. - Mas temos que vigiar, porque todos os dias vem gente para tentar dormir nas grutas.

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