30 de setembro de 2007
 
Como virar um mutante

Renata Victal

Uma menina aparentemente normal abre as asas e começa a voar. Os caninos de um garoto crescem, assim como pêlos pelo corpo, e ele adquire a agressividade de um lobo. É dessa forma, com características nada humanas, que os mutantes da novela Caminhos do coração, da Rede Record, vêm conquistando uma legião de fãs. Para dar realismo às cenas, a direção da emissora investiu pouco mais de US$ 1 milhão em equipamentos de ponta e montou um departamento de computação gráfica.

Entre as novidades tecnológicas estão os programas Flame e Inferno, que modelam pessoas em três dimensões e criam grandes números de possibilidades virtuais. Para se ter uma idéia da qualidade de acabamento que os programas permitem, basta assistir a filmes como Piratas do Caribe e Harry Potter, que utilizaram os softwares. Ao todo, 20 técnicos se revezam na frente dos computadores.

Foram compradas ainda duas câmeras Viper, que trabalham sem compressão e oferecem qualidade final superior a qualquer outro sistema de captação de imagens em HDTV existente no mercado.

O diretor-geral da trama, Alexandre Avancini, não poupa elogios à equipe comandada por Marcelo Brandão. "As pessoas trabalham 24 horas por dia porque todo o processo é muito lento. Quando chegou a sinopse da novela começamos a discutir o que precisava ser feito e que equipamentos compraríamos. Em Vidas opostas, usavámos alguns recursos de computação, mas eram apenas para complementação de cenário em uma ou outra cena. Já em Caminhos do coração, alguns personagens só existem com os efeitos especiais. Por isso, as cenas são mais demoradas. Uma cena normal é gravada em 40 minutos. Uma com efeitos pode levar três ou mais dias", explica Avancini.

Foi o que aconteceu na gravação de uma das primeiras cenas da trama, quando o personagem Aquiles (Sérgio Malheiros), que tem o poder da velocidade, decidiu apostar corrida com uma moto. Foram necessários cinco dias de gravação. A primeira tentativa, conta Sérgio, não deu certo e foi preciso regravar, até que o efeito parecesse natural. A cena impressionou pelo realismo.

"Fizemos cinco externas e passamos mais um dia no estúdio. Eu corria com o cromakey (no fundo verde de uma cena, é possível recortar o objeto e inserir outros cenários) atrás de mim. Depois, me filmaram correndo ao lado da moto. Foi bem cansativo, mas também não ficou muito bom. Aí, decidiram me colocar correndo numa esteira com o cromakey atrás e aceleraram a imagem", conta.

É assim, experimentando novas e antigas técnicas, que a emissora consegue levar ao ar imagens diferentes daquelas que o público está acostumado a assistir. Nem todas impressionam pelo primor, mas a maioria garante bons índices de audiência. A cena do resgate do menino lobo promete tirar o fôlego do público:

"Estamos nos preparando para gravar o momento em que salvo o Vavá (Cássio Ramos) de um afogamento. Vou correr sobre as águas. Ainda não sei bem como isso será feito. Mas o Avancini me disse que vão tentar colocar um assoalho embaixo d' água. Estou curioso e tenso", afirma Sérgio.

O diretor confirma a dificuldade de algumas gravações de Sérgio, mas explica que, às vezes, são utilizados efeitos mecânicos. "A explosão de vidro e o movimento de objetos têm uma complexidade menor. Já as asas da Angela são 100% virtuais. Aliás, tanto a Angela quanto o Aquiles têm personagens no computador. Nossos modeladores de 3D são ótimos", exalta Avancini.

Além dos aparatos tecnológicos, a emissora contratou a professora Vera Freitas para ensinar expressão corporal. Ela ajuda os jovens a reproduzir os movimentos dos bichos. "Comecei com Cássio Ramos, Júlia Maggessi e Shaila Arceni, trabalhando em cima da história da novela e já com os textos em mãos. Não é difícil que eles acreditem no que estão fazendo, porque são crianças e os personagens que interpretam estão próximos do seu imaginário. A Júlia já tinha imaginado como seria se ela tivesse asas. O trabalho é sempre feito em cima do texto. Lemos juntos e vamos ensaiando as cenas".

Vera conta ainda com a ajuda da preparadora corporal Daniela Visco, que participa das cenas em que são colocados cabos. Ela ajuda na orientação dos movimentos. As aulas também têm sido úteis para Cássio, de 9 anos, que interpreta o menino lobo. "A Vera me ensinou alguns truques. Reparo também no meu cachorro, um pastor alemão. Sempre que ele rosna, eu imito", revela Cássio.

Na opinião do diretor, todo o investimento feito até agora valeu a pena:

"O feedback que tenho é positivo. Semana passada, por dois dias consecutivos, tivemos 15 pontos de média. Se compararmos com o início de Vidas opostas, temos uma audiência maior. Estreamos com uma audiência recorde e sabíamos que teríamos uma queda natural. Agora, estamos consolidando a audiência e crescendo, o que é importante", conclui Avancini.

[ 30/09/2007 ]   02:01