25 de julho de 2008
 
Opinião - A demolição de idéias e iniciativas

Na edição do último domingo, o Jornal do Brasil capturou as prioridades de 10 personalidades da cultura carioca para a gestão do próximo prefeito eleito. Das sugestões de investimentos em todas as áreas uniformemente ou de aumento dos recursos para a cultura extraem-se lições relevantes para o futuro. A principal delas é uma constatação: a certeza de que o prefeito Cesar Maia mais desfez do que efetivamente produziu algo de bom neste terreno. Espaços culturais abandonados, rede municipal de teatros entregue à própria sorte, a distância estratégica do chefe do executivo municipal, como também de toda a sociedade, dos anseios da classe artística, tudo isso integra um cenário parasitário das atividades culturais da cidade nos últimos quatro anos.

Ao se encastelar em seu mundo virtual, Cesar Maia desbotou as lonas culturais – verdadeiros pólos de irradiação de saber, entretenimento e lazer – fechou a torneira das administrações dos teatros e deixou a Lapa, um dos maiores centros ativadores de música do Brasil, ao Deus-dará.

Em vez disso, sangrou os cofres públicos para construir a Cidade da Música, na Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade, para onde migrou exorbitantes R$ 550 milhões numa obra faraônica e, ao que tudo indica, fadada a ser desvirtuada de seu projeto original. Basta dizer que, noutra reportagem do JB, também no domingo no Caderno B, os candidatos à prefeitura sentenciaram, sem disfarce, que o lugar não será apenas um espaço dedicado apenas à música clássica, como consta na cabeça de Cesar.

Entre os erros crassos do prefeito, lista-se quase um testamento de caminhos errados, entre eles o próprio orçamento da cultura, que, acintosamente, caiu 60% de 2006 para 2007, o que gerou, entre outros cortes, a diminuição da verba de galerias de arte públicas, como a do Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá. O lugar, aliás, demorou mais de um ano para ser reaberto após um incêndio no primeiro andar.

A RioFilme também patinou na administração Cesar Maia. Há um bom tempo a entidade não lança editais de co-produção de filmes de longa-metragem filmados no Rio por falta de dotação orçamentária. Os últimos projetos são longas de baixíssimos custos, em torno de R$ 80 mil. O Panorama de Dança e o projeto riocenacontemporanea igualmente perderam. O festival de dança perdeu o apoio da prefeitura e o de teatro não pôde usar os espaços municipais. A falta de verbas atingiu em cheio as atividades nos teatros da rede. No auge da crise, o ator e diretor Miguel Falabella, administrador do setor, pediu para ser exonerado diante da falta de recursos. Instituições como a RioArte, que geria R$ 24 milhões, foi extinta. Em seu lugar, foi criada uma subsecretaria de cultura sem verba própria e desprestigiada. A cultura desafinou.

A grita dos produtores culturais contra Cesar Maia gira especialmente em torno da desconstrução de suas próprias iniciativas. A insatisfação se baseia no fato de o prefeito ter demolido todo o conceito e aplicação no segundo mandato criados no primeiro.

Que o próximo prefeito retome as rédeas da vocação cultural da cidade e reveja o pífio orçamento para a área já a partir de 2009. A integração entre os equipamentos culturais da prefeitura e do governo estadual, a consolidação de uma política eficiente para o segmento e a formação de uma plataforma de metas precisam adquirir contornos profissionais. Só assim será possível fazer com que voltem a gerar emprego, renda, e sejam capazes de melhorar a imagem do Rio no Brasil e no exterior. É o que, minimamente, os cariocas esperam da futura administração.

[ 25/07/2008 ]   02:01