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Comissão de Anistia formaliza 70 depoimentos
Vasconcelo Quadros
São Domingos do Araguaia
A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça ouviu neste fim de semana, em São Domingos do Araguaia, um dos palcos da Guerrilha do Araguaia, 120 moradores perseguidos pela ditadura militar durante o período do conflito e acrescentou um dado novo ao drama dos desaparecidos: formalizou o depoimento de cerca de 70 mateiros, grupo formado por moradores obrigados a servir os militares. Eles poderão ajudar a esclarecer as circunstâncias em que foram mortos os 58 militantes do PC do B desaparecidos no Araguaia entre 1972 e 1975. Alguns mateiros sabem de locais onde inicialmente foram enterrados corpos de guerrilheiros e podem ser úteis no cruzamento de informações sobre o paradeiro de ossadas.
Forçados a ajudar
As declarações serão levadas à Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), o órgão responsável pelas buscas, pela representante da Comissão de Mortos e Desaparecidos, Diva Santana – irmã da guerrilheira desaparecida Dinaelza Santana Coqueiro.
Os agricultores foram duplamente penalizados. Eram amigos dos guerrilheiros, sem saber que o PCdoB organizava a luta armada, e depois foram perseguidos. Quando os militares, já na segunda fase da campanha, com tropas especiais e descaracterizadas, decidiram pelo extermínio do movimento, os mateiros foram os primeiros a serem presos, torturados e obrigados a ajudar nas buscas.
– A gente sofreu que nem passarinho na mão de menino. Quem disser que não foi maltratado está mentindo – disse Pedro Pereira da Silva, de São João do Araguaia, convertido em mateiro à força.
A comissão ouviu relatos de todo tipo: espancamentos, tortura com choque elétrico e pau de arara, pressão psicológica, ameaça e perseguição permanente até que o último guerrilheiro fosse eliminado.
Perseguido ou perseguidor
O papel dos guias é uma controvérsia dentro da própria comissão, que terá dificuldade em distinguir, em muitos casos, quem foi perseguido ou perseguidor.
– É uma questão polêmica que os conselheiros terão de debater caso a caso – diz o presidente da comissão, Paulo Abrão. Quem foi pago ou recebeu benefício pode não ser indenizado. O Incra informou ao Ministério da Justiça 35 nomes de agricultores que teriam sido contemplados com terras num projeto de reforma agrária implantado no fim da guerrilha.
Donos da terra
Algumas das áreas do projeto de Reforma Agrária pertenciam a guerrilheiros como Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, e Paulo Mendes Rodrigues, que foram chefes de destacamentos, mas eram tidos também como fazendeiros na região. Mais temido guerrilheiro, Osvaldão foi executado por um guia, Arlindo Vieira, cuja família também reivindica reparação.
– Nós tivemos de pagar as terras ao Incra. Não veio de graça – afirma outro guia, Manoel Leal de Lima, o Vanu, que buscou pistas de sobreviventes para o Exército.
Último a prestar depoimento no sábado, Vanu contou que ele mesmo transportou os corpos e depois escavou com uma enxada a cova rasa onde ficaram enterrados os guerrilheiros André Grabóis, conhecido na região por Zé Carlos, João Gualberto Calatroni, o Zebão, e Antônio Alfredo de Lima, agricultor que aderiu à guerrilha.
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