02 de julho de 2007
 
A guerra sem fim

Se quiséssemos encontrar o início da guerra que se trava hoje no Rio, deveríamos voltar a 1896 e 1897, e ao sertão da Bahia, no cerco e aniquilamento do Arraial de Canudos. Ali não houve vencedores, mesmo que o governo haja comemorado a destruição do estado messiânico de Antonio Conselheiro como uma vitória da República. Os principais combatentes - os soldados e pequenos oficiais das tropas expedicionárias, de um lado, e os milicianos do Beato, do outro - foram vítimas das oligarquias assentadas na velha injustiça que sobrevivera à monarquia.

Milhares dos soldados veteranos de Canudos se deslocaram para o Rio, sob a vaga promessa de empregos permanentes, e muitos acamparam, com suas famílias, no morro atrás do Palácio do Itamaraty, então sede do novo governo. Deram-lhe o nome de Favela, em referência ao outeiro diante de Canudos, onde se travou a batalha decisiva contra Antonio Conselheiro.

Queiramos ou não admitir, as favelas do Rio não incomodam porque abriguem traficantes - cujos chefes vivem nos bairros elegantes - mas porque nelas se concentram os pobres. Quando os pobres, favelados ou não, se atreveram, nos anos 50, a freqüentar as praias da Zona Sul, eram farofeiros, porque levavam sua merenda de casa, da mesma forma que suas marmitas para o trabalho. Durante muito tempo, com o pretexto hipócrita da caridade, tentaram expulsá-los para os subúrbios distantes. A realidade econômica foi mais forte. Expulsos pela miséria do campo e das cidades menores, os pobres, para sobreviver, continuaram a afluir para as cidades maiores. As favelas multiplicaram-se, no Brasil e em todo o terceiro mundo.

Os pobres parecem não ter saída. Os que se reuniram ao MST, tenham sido lavradores expulsos de suas pequenas propriedades pelo agronegócio, sejam oriundos dos subúrbios das grandes cidades, são perseguidos e assassinados. Eldorado de Carajás foi um pequeno Canudos. Nestes mesmos dias, um acampamento dos sem-terra em Rondônia foi incendiado e seus moradores afugentados a tiros, por pistoleiros alugados pelos fazendeiros. Todos os dias, pobres são assassinados, geralmente por justiceiros, no Rio, em São Paulo, Recife, Vitória e outras cidades brasileiras. Todos os dias morrem pequenos agricultores, a mando de grileiros, nas novas fronteiras agrícolas.

O assalto armado ao Complexo do Alemão deve ser esclarecido pelo governo do Estado. A OAB está certa. É necessário identificar, claramente, todas as vítimas, e saber de que armas partiram os disparos. Mais do que saber se tinham ou não antecedentes criminais, é preciso esclarecer se, em confronto, disparavam armas de fogo quando foram mortos. Se eram inocentes, foram vítimas de um massacre deliberado ou, no melhor dos casos, de erros táticos na operação. Isso se não se tratou de uma iniciativa planejada a fim de dar satisfação a parcelas da classe média.

Os brasileiros pobres se sentem perseguidos como membros de uma nova etnia, de uma raça inferior, como foram considerados antes os judeus, os ciganos e os negros. São a maioria da população e estão sendo escorraçados da comunidade nacional como indesejáveis. Essa é uma das explicações para que jovens, em gangues da alta classe média, saiam à noite a fim de espancar e humilhar os pobres, e, eventualmente, matar prostitutas, homossexuais, moradores de rua e trabalhadores, como tem ocorrido com freqüência.

As forças policiais escalaram a imensa favela como tropas invasoras de um território inimigo. É um imenso risco político. Basta uma simples operação de aritmética, que conte os ricos e os pobres, para saber que estão brincando com fogo.