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Karla Correia BRASÍLIA. Um estudo divulgado ontem pela Federação Internacional de Planejamento Familiar veio dar mais munição ao governo no debate sobre a legalização do aborto no país. De acordo com o relatório, 70 mil mulheres morrem a cada ano por causa de complicações decorrentes de abortos. Nenhuma dessas mortes ocorreu em países onde o procedimento é legalizado, afirma a diretora da federação, Carmem Barroso. - As maiores vítimas são as mulheres pobres e as meninas mais jovens, que não têm acesso ao aborto seguro - disse Carmem, ao apresentar os resultados do relatório, que revela ainda forte ligação entre a pobreza e a prática de aborto. De acordo com o trabalho, mais de 96% dos abortos são realizados nos países mais pobres do mundo, 17% dos procedimentos acontecem na América Latina. No Brasil, essa relação se repete. Dados do Ministério da Saúde mostram que 63,8% das mortes maternas no país são registradas no Nordeste. Cerca de 9,5% desse montante está diretamente relacionado com complicações decorrentes de abortos forçados. Para secretário-executivo da organização não-governamental Bem-Estar Familiar no Brasil (Bemfam), Ney Costa, esses números subestimam o real tamanho do problema de mortes por aborto no país. Segundo ele, as ocorrências de infecção generalizada e hemorragia citadas como causa de morte nas certidões de óbito de mulheres muitas vezes escondem o principal motivo da morte - as complicações de um aborto inseguro. A ONG estima que o percentual de mortes maternas relacionadas à interrupção de gravidez seja, no mínimo, três vezes maior do que as estatísticas apontam. - Muitas mulheres que chegam aos hospitais com complicações depois de abortos clandestinos temem ser retaliadas ou punidas e escondem sua condição, e esses dados permanecem desconhecidos - explica Ney Costa. - A situação do aborto no Brasil é um flagelo muito maior do que se tem conhecimento. Contudo, o custo do governo com o tratamento de seqüelas de gravidezes interrompidas de forma clandestina é conhecido. E alto. No ano passado, as internações relativas a abortos inseguros custaram R 33,6 milhões ao Sistema Único de Saúde. Pesquisa sobre prática de abortos realizada no país em 1999 mostrou que 20% dos abortos clandestinos, praticados em clínicas ilegais, pela própria mulher ou pelas chamadas "curiosas", apresentam complicações. A maioria dos casos que chegam à rede pública de saúde são perfurações do útero, infecções e hemorragias. - As mulheres chegam aos hospitais quando a situação já está bastante grave, por não saber reconhecer os sinais de uma complicação pós-aborto ou pelo temor de maus-tratos - diz a diretora regional do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), Ana Falú. - A falta de informação e o preconceito são os fatores que mais matam mulheres que abortaram.
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