07 de maio de 2007
 
Tucanos sem rumo e Lula sem oposição

Sérgio Pardellas

n Brasília. A movimentação, na última semana, dos principais cardeais do PSDB evidenciou que o principal partido de oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva ainda pilota uma nau sem rumo, mesmo passados quase sete meses das eleições presidenciais, de onde saíram falando idiomas diferentes.

Sem um discurso forte para se contrapor a Lula e ao PT, com a economia de vento em popa e a popularidade do presidente nas alturas, parte expressiva do partido se vê refém do projeto dos dois principais nomes do PSDB para a eleição presidencial de 2010 - os dos governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas Gerais, Aécio Neves. Esse projeto passa pelo diálogo com o Palácio do Planalto.

Do outro lado da trincheira, tucanos mais empedernidos e o ex-presidente Fernando Henrique pregam a defesa do legado do partido e uma oposição renhida a Lula e ao PT, sob pena de passar para a opinião pública a imagem de uma legenda sem identidade. Há ainda uma tucana favorável a uma atuação híbrida: oposição ferrenha no Congresso, mas diálogo com o governo quando questões administrativas estiverem em pauta.

- Os governadores têm de manter uma relação administrativa até para não prejudicarem os seus Estados - argumenta o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR). - Mas não podemos deixar de fazer oposição no Congresso sob o risco de cairmos na vala comum.

Interessados em acabar com o instituto da reeleição - o que facilitaria um acordo futuro sobre quem será candidato a presidente daqui a quatro anos, deixando ao outro o caminho livre para concorrer em 2014, e de olho em negociações com o governo federal que beneficiem economicamente os seus Estados - Serra e Aécio, sem cerimônia, fazem do diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quase uma rotina.

Na quinta-feira, ao participar, ao lado de Lula, da abertura da Expozebu 2007, em Uberaba (MG), o chefe do Executivo mineiro adotou o discurso de que governo e oposição devem manter o entendimento e esquecer, por ora, as questões eleitorais. Aécio ainda insinuou que o ex-presidente Fernando Henrique fala sozinho no PSDB quando critica o diálogo da legenda com o governo federal, como fez em entrevista à TV JB há duas semanas.

- O povo está olhando para nós e dizendo: o que vocês são, peixe ou carne de vaca? - disse FH.

A aproximação com o Palácio do Planalto é endossada pelo presidente nacional do partido, Tasso Jereissati (CE), a quem coube, a partir de uma visita a Lula no último mês, escancarar as portas para o entendimento.

- O Tasso tem absolutamente todo o meu aval pessoal e de praticamente todo o partido para continuar tendo essas conversas - disse Aécio.

Na sexta-feira, em sintonia fina com Aécio, Serra disse que oposição tem de ser feita no Congresso. As declarações foram vistas com ressalvas pela ala tucana mais alinhada ao ex-presidente da República.

- Os governadores devem pensar administrativamente, mas nada impede que eles se posicionem politicamente - disse o deputado José Aníbal (SP) ao JB.

Para o deputado, essa tomada de posição dos governadores acaba "gerando ambigüidades". O tucano cita como exemplo a disputa pela presidência da Câmara, em fevereiro, quando os votos do PSDB foram decisivos para a vitória, em segundo turno, do petista Arlindo Chinaglia (SP) sobre o então presidente Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que disputava a reeleição.

- Se tivéssemos fechado em torno de Aldo, o Chinaglia não tinha levado - lembrou.

Para o líder da minoria na Câmara, deputado Júlio Redecker (RS), a aproximação e o diálogo com o governo federal são válidos quando for para tratar de temas de interesse do país. A exemplo do ex-presidente Fernando Henrique, Redecker condenou o encontro de Tasso com Lula no Planalto.

- Tasso poderia ter ido lá como senador do Ceará, mas nunca como presidente do PSDB - criticou. - Sou um dos líderes do partido e até hoje não sei qual foi a pauta desse encontro.