25 de março de 2007
 
Números com um toque humano

Mariana Filgueiras

Decepcionada com a política financeira adotada nos primeiros anos do governo Lula, Danielle Mitterrand - viúva do estadista francês François Mitterrand - enviou-lhe uma carta de próprio punho. Cobrou mais empenho na luta contra a desigualdade social. Anexou uma lista de sugestões de projetos. "A principal bandeira da esquerda não está erguida", criticou a militante. Lembrou ao presidente a experiência do governo Mitterrand, que tentava levar à frente um projeto socialista sob fortes pressões econômicas. E, para sua surpresa, recebeu uma resposta atenciosa do presidente, que prometeu analisar as propostas.

Não perdeu tempo. Aos 82 anos, sorriso terno e nenhum fio de cabelo branco, Danielle veio ao Brasil apressar a atenção de Lula. E conseguiu que pelo menos uma das sugestões - criar indicadores sociais para a medição de desenvolvimento do país - fosse acolhida pelo governo federal, por meio de acordo com o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).

À frente da organização não-governamental France Libertés, responsável por mais de 100 projetos humanitários pelo mundo - seis deles no Brasil - Danielle parte do pressuposto de que, sem dados corretos, não é possível articular a sustentabilidade em um país.

Está aí a raiz dos seus projetos: a criação de um novo indicador capaz de dimensionar com mais exatidão as variáveis culturais, ambientais, éticas e sociais das nações.

A pesquisadora explica que os indicadores econômicos que compõem o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, como o Produto Interno Bruto (PIB), por exemplo, só levam em conta fatores monetários.

- O PIB contabiliza positivamente atividades "destrutivas" como guerras, poluição, doenças, desde que gerem fluxo monetário. E ignora o acesso à água ou à terra, por exemplo - lamentou Danielle.

Assim, o país dimensiona seu crescimento industrial, segundo Danielle, mas não avalia o grau de devastação do meio ambiente. Ou quanto produz de riqueza por meio do trabalho doméstico. Ou ainda, se preserva a própria cultura. A falta de tais indicadores - chamados tecnicamente de "sintéticos" - acaba por deformar o diagnóstico real do país.

- Durante a Segunda Guerra, na Resistência Francesa, meu pai foi aposentado porque não queria denunciar crianças judias para as quais ele dava aula. Ser aposentado, naquele tempo, era demitir, deixar sem renda. Toda essa história foi a minha maior riqueza. É preciso refletir sobre quais são as novas riquezas do mundo. É preciso formular novos indicadores - emociona-se.

O acordo com o Brasil dá sinais de que não vai ficar no papel: o governo do Acre se ofereceu para abrigar os pesquisadores e ser o primeiro Estado a dispor de um indicador deste tipo, que leve em consideração fatores não-monetários.

- Percebemos que o Estado que tem o segundo pior IDH do Brasil é o mesmo onde os índios têm seu território garantido há mais de 10 anos. O governador Jorge Viana nos ofereceu apoio e seis pesquisadores franceses começam as investigações dentro de pouco tempo - explicou o pesquisador André Abreu de Almeida, responsável pelos projetos da fundação na América Latina.

A pesquisa no Estado deve durar dois anos. Com os resultados em mãos, o objetivo será demonstrar ao governo a importância de estender a estratégia a todo país. André usa como o Mato Grosso como exemplo. Segundo ele, a alta produtividade de soja da região reflete em aumento do PIB, o que eleva o IDH. Mas, ao mesmo tempo, produz êxodo rural, desertificação e pobreza.