03 de março de 2007
 
Opinião: Especulação X produção

Antônio Ermírio de Moraes, empresário

A CHINA deu um susto no mundo. Com a economia globalizada e os países interligados pelos computadores, a queda da bolsa chinesa em quase 9% provou um grande solavanco em todo o planeta Terra na última terça feira.

É assim mesmo. Uma economia que é forte para crescer 10,7% ao ano é igualmente poderosa para provocar grandes estragos.

No dia seguinte, esboçou-se a recuperação. Com o domínio do governo, os agentes econômicos que operam na China foram levados a comprar papéis em grande escala na Bolsa de Xangai.

Outros solavancos poderão acontecer. O ocorrido foi apenas uma amostra da devastação que pode ser transmitida às economias dos países ricos e pobres em decorrência da mudança de humor dos investidores da China.

Mas quem freqüenta e navega no mercado financeiro sabe disso. Uma grande parte de seus ganhos é proveniente de especulação e de sorte. A outra parte é sustentada pela economia real, ou seja, pelos que investem na produção.

O mundo dos que produzem é bastante diferente. A sorte é o ingrediente minoritário e a especulação é absolutamente secundária. Para ganhar na economia real, é mister trabalhar muito; ter intuição na escolha do negócio; usar a cabeça na seleção das tecnologias; ser ágil na inovação de bens e processos; financiar-se com cautela; administrar os negócios pessoalmente; contar com profissionais competentes; investir na capacitação dos colaboradores; e, no caso do Brasil, estar preparado para entregar uma grande parte do que produz ao governo e aos bancos.

São mundos diferentes. No da especulação, domina a esperteza; no da produção, corre o suor. São mundos de vida quase autônoma. E que se baseiam em economias que pouco conversam entre si.

Veja o caso do Brasil. Do ponto de vista da economia da especulação, os fundamentos estão sólidos. Do ponto de vista da economia da produção, a referida solidez é garantida pelo sacrifício da segunda. O PIB cresceu apenas 2,9% em 2006.

Uma outra diferença importante diz respeito à segurança do investimento. Quem investe em títulos públicos em reais, dólar ou euro, tem uma renda líquida de 8% ou 9% ao ano, com a vantagem de pular fora desse negócio da noite para o dia, protegendo o principal e os rendimentos.

Quem investe na construção de uma fábrica ou organização de uma fazenda - assim como de um hospital ou de uma escola - além de ganhar muito menos e ter mais trabalho, fica sem mobilidade para pular do barco que ameaça afundar.

Ocorre, porém, que a produção, os impostos, as reservas cambiais, a renda e o emprego vêm da economia da produção. Na outra, estão os que jogam, perdendo hoje, lucrando amanhã - e sempre ganhando no longo prazo. Até quando o mundo ficará separado pelas duas economias?