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Josie Jeronimo Milícias, mateiros, seguranças regulares, polícia comunitária, jagunços e pistoleiros. De muitos modos e com sotaques variados, o apagão da segurança pública no Brasil dá margem à invasão da força privada. O número de agentes de segurança legais - registrados na Polícia Federal - é quase três vezes maior do que o efetivo de policiais no país. Enquanto o Estado brasileiro conta com 506.411 policiais civis e militares para proteger os cidadãos, a iniciativa privada colocou nas ruas um pelotão de 1.422.335, de acordo com o Ministério da Justiça. Em seis anos, um milhão de pessoas foram recrutadas para o mercado da segurança. Esse número diz respeito aos profissionais regulares. Os homens que integram milícias ilegais em diversos Estados não estão ao alcance das estatísticas oficiais, mas estima-se que o exército clandestino é maior do que a milícia legalizada. O crescimento do mercado paralelo da proteção demonstra a falência da segurança pública do país. O fenômeno do esquema de proteção privada começou em abastados condomínios e agora se repete em áreas pobres dominadas pelo tráfico. Cada um a seu modo, com o boleto bancário no fim do mês ou com a caixinha da TV a gato - a exemplo do que ocorre em algumas comunidades fluminenses - o brasileiro paga pela segurança assim como o paciente recorre aos planos de saúde por não poder contar com o Estado. Se o Rio reiventou o conceito de milícia, e ganhou destaque nacional e internacional pela ação de um grupo armado formado por policiais que expulsam o tráfico das favelas, a designação não é novidade para os policiais federais que atuam em regiões de conflito agrário pelo país. Depois do massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 trabalhadores rurais foram mortos por policiais, em 1996 no Sul do Pará, os sem-terra decidiram formar sua própria milícia. Assustados com a influência financeira que os fazendeiros e madeireiros exercem sobre os policiais militares, os trabalhadores rurais do Pará pagam uma "caixinha" para manter seu braço armado e se defender da outra milícia. - O pessoal resolve as coisas por si - resume o delegado Eduardo Henrique, da Polícia Federal de Belém. O delegado reconhece a existência da força paralela no Estado, mas ressalta que a milícia do Pará é semelhante à do Rio em relação às regras territoriais adotadas em seu campo de atuação, mas se diferencia no armamento: - Para comprar armas aqui é uma dificuldade. Autoridades do Pará admitem que alguns municípios do interior, onde a fiscalização do poder público sobre a atuação dos policiais é mais difícil, reforçam a equipe responsável pela segurança pública contratando uma "polícia comunitária", termo usado para designar a força treinada para agir de forma independente "sempre que for necessário", como um grupo de extermínio. Na Bahia, o município de Serra do Ramalho também recorreu ao poder paralelo para conter crimes. A Polícia Federal do Paraná conhece, desde 2005, a ação desses grupos, principalmente em relação ao conflito agrário. O interesse dos fazendeiros aliado à falta de atuação do governo federal para atenuar os conflitos de terra resultaram em um organizado grupo paramilitar que atua em Cascavel, Ponta Grossa e Curitiba. O tenente-coronel Valdir Coppetti foi preso, acusado de comandar a milícia. - Eles atuavam como um grupo de extermínio - conta o agente Altair Menoso, da PF de Curitiba. - O tenente comandava policiais e ex-policiais contra trabalhadores sem-terra. Tinha qualidades técnicas para coordenar as ações. A PF descobriu que os integrantes do sindicato rural de Ponta Grossa pagavam "cotas mensais" de R$ 800 para manter a milícia. O grupo usava artilharia pesada e técnicas de inteligência para espionar líderes sem-terra da região. Faziam, até mesmo, fotografias aéreas dos acampamentos.
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