25 de julho de 2008
 
Antes da posse, Itaipu gera crise

Diplomata cobriu vácuo na chancelaria aberto por renúncia de historiadora

Camila Arêas

A polêmica negociação dos termos de Tratado de Itaipu, principal desafio da nova chancelaria do Paraguai, impulsionou a primeira crise interna do governo de Fernando Lugo, que assume dia 15 em meio a grande expectativa popular. A renúncia de última hora da historiadora Milda Rivarola do posto de ministra das Relações Exteriores abriu um vácuo que perdurou por semanas. No centro do quebra-cabeça está Carlos Mateo, nomeado titular da Itaipu Paraguai, portanto peça-chave na negociação com o Brasil. Milda discordou da indicação por motivos ideológicos e demitiu-se. Porém, Mateo era já segunda pessoa em vista para ocupar a chancelaria.

Assim foi que o também historiador Alejandro Hamed tornou-se, nesta semana, o futuro chanceler. Atual embaixador paraguaio no Líbano, Hamed é visto por analistas como potencialmente mais habilidoso no diálogo com o Brasil.

– O susto provocou mal-estar nos bastidores da Aliança Patriótica para a Mudança que elegeu Lugo sob a bandeira de rever o Tratado de Itaipu, nacionalmente considerado injusto com o Paraguai – descreve o cientista político Alejandro Vial.

Amigo íntimo de Milda, Vial explica que a historiadora tinha uma estratégia para a negociação com o Brasil mais afim ao especialista em questão energética Ricardo Canesi, do movimento esquerdista Tejojojá, que conforma a Aliança Patriótica:

– O problema é que o Partido Liberal é a maior base parlamentar da Aliança e Lugo tem de dar equilíbrio a seus membros dentro do governo. E o nomeado Mateo é liberal. Milda interpretou ser impossível trabalhar com ele, o governo insistiu que ela revisse sua postura. Ela renunciou.

De excelência acadêmica, Milda é tida como ideologicamente intransigente em seus princípios, postura anti-diplomática que contrasta com o ainda incógnito Hamed.

Pouco conhecido da política paraguaia, Hamed ganhou os holofotes quando desenterrou-se uma velha polêmica, conta Enrique Chase, diretor do instituto de pesquisa ICA:

– Ele distribui passaportes paraguaios a uma organização humanitária para "salvar" os libaneses deslocados da guerra contar Israel. Alega que, em meio aos bombardeios, esta era uma questão de vida ou morte.

De pai sírio e autor de livros em defesa da causa palestina, Hamed declarou ontem que vai encarar as negociações para obter um melhor preço pela energia da usina de Itaipu com a experiência que adquiriu na guerra contra Israel em 2006.

– Saí vivo de uma guerra, em que há problemas reais. Aqui, trata-se de negociar. Estou preparado – disse.

Uma das hidrelétricas mais potentes do mundo, Itaipu gera 20% do total da energia consumida pelo Brasil, que utiliza quase a totalidade do que é produzido pela usina por meio da compra da energia paraguaia ao preço de custo. A reivindicação paraguaia é que o Brasil pague o preço de mercado.

Os países formaram uma comissão técnica para avaliar o pedido depois do dia 15 de agosto, mas Hamed já anunciou que se reunirá na próxima semana com Mateo. O ex-senador liberal, por sua vez, declarou que planeja se encontrar com Marco Aurélio Garcia, assessor de relações exteriores do presidente Lula, nos primeiros dias de agosto.

[ 25/07/2008 ]   02:01