29 de fevereiro de 2008
 
Farc passam pelo Brasil, diz ex-refém

Mesmo procurando se afastar de qualquer participação direta na luta pela libertação de presos políticos pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o Brasil é uma das nações pelas quais os guerrilheiros colombianos transitam livremente, transportando reféns, e de onde também recebem provisões. O ex-congressista Luis Eladio Pérez, libertado quarta-feira, revelou ontem que, durante os mais de seis anos que permaneceu em cativeiro, os rebeldes se movimentaram pelas divisas do país e chegaram a usar desodorantes e remédios brasileiros. O comando do Exército na Amazônia alegou que é impossível controlar a movimentação devido à extensão do território. O Itamaraty negou que o governo tenha doado suprimentos para a guerrilha.

Em entrevista por telefone à Caracol Radio, de Bogotá, Pérez disse que, em poder das Farc, esteve nas fronteiras do Brasil, Peru, Venezuela e Equador - nesta última, dormiu quando a guerrilha o transferiu das montanhas do Sul até as florestas do interior colombiano, para levá-lo para junto de outro grupo de seqüestrados.

- Usávamos botas de marca equatoriana, foram usados explosivos, munição equatorianas, desodorantes e alguns remédios brasileiros, cremes dentais e sabões venezuelanos - contou Pérez.

Controle

À frente do Comando Militar da Amazônia (CMA), responsável pelas fronteiras do Brasil com a Colômbia, o general Augusto Heleno Pereira afirmou que a fronteira possui 11 mil quilômetros, o que torna impossível controlar a passagem dos guerrilheiros.

- São 99% de selva densa, cuja infiltração pode ser feita por rios e em que é difícil distinguir a marcação da fronteira - informa Heleno, há seis meses no comando do CMA. - Para se ter uma idéia, a fronteira dos EUA com o México tem 2.500 quilômetros e, mesmo com todo o aparato tecnológico, os americanos não conseguem patrulhar toda extensão.

O general cogita a hipótese dos produtos serem comprados na própria Colômbia, exportados por via legal, porém revela que a cidade mais próxima da fronteira, São Gabriel da Cachoeira, com cerca de 50 mil habitantes, é "sabidamente" fonte de abastecimento para as Farc.

- Os guerrilheiros não atravessam a fronteira como guerrilheiros, e os postos na fronteira são temporários, como se fossem uma blitz - ressalta, dizendo desconfiar de que alguns colombianos à procura de atendimento médico na região sejam rebeldes - Uma vez na cidade, contudo, se misturam à população local, formada também por indígenas, colombianos, peruanos.

O comandante do CMA conta que revelou a presença de rebeldes em palestra aos ministros da Defesa, Nelson Jobim, e da Casa Civil, Dilma Roussef.

A declaração de Pérez ocorre um dia depois das Farc ameaçarem iniciar uma campanha de seqüestros e ataques ao Panamá caso o governo do país não liberte até o dia 1° de março seis combatentes do grupo capturados no fim de semana passado. O general descarta a possibilidade do mesmo acontecer com brasileiros.

- O último confronto ocorreu por incidente, em 1991, quando deram de cara com o Exército na mata - lembra Heleno. - Tudo que acontece a gente fica sabendo, e não é de interesse deles abrir outra frente, criar outro problema.

[ 29/02/2008 ]   02:01