09 de agosto de 2008
 
Um dicionário para entender o livro, dos pergaminhos aos e-books

Juliana Krapp

Talvez praga tardia de alguma rainha louca, talvez sintoma de uma negligência nacional no assunto. Mas o fato é que a melhor homenagem ao aniversário de 200 anos do livro no Brasil, nesta Bienal de São Paulo, vem justo d’além-mar.

Produto do labor obsessivo de duas portuguesas que, não alheias a isso, chamam-se Maria, o Dicionário do livro: da escrita ao livro eletrônico, lançado durante a feira, é a mais abrangente reunião de termos relativos à produção editorial já publicados no Brasil. Traz cerca de 23 mil verbetes, que passeiam dos pergaminhos aos e-books, das figuras de estilo e retórica às modalidades de gravura. E que, como há 200 anos, transformam o trote histórico numa bem-aventurada aquisição.

Tirar pastel

Para o leitor das suas 768 páginas, o dicionário desvenda um mundo de significados ocultos. Vejamos "flor": fora do universo botânico, vira "parte exterior do pergaminho em couro". Já "tirar pastel" equivale a "retirar do caixotim dos quadrados as letras de caráter diferente que lá foram colocadas". E "dedadas", quem diria, não passam de inocentes "marcas deixadas nos documentos pelo seu manuseio".

– Nossa motivação foi evitar a perda de expressões que, com o avanço da tecnologia, perigam desaparecer. Mas registramos também as rubricas contemporâneas – conta Maria da Graça Pericão, autora ao lado de Maria Isabel Faria, ambas bibliotecárias.

As duas Marias começaram sua pesquisa há 25 anos, quando o expediente na biblioteca da Universidade de Coimbra lhes deu subsídios para as anotações iniciais. A estas somaram-se uma extensa investigação bibliográfica e horas a fio de conversas com tipógrafos, antiquários, livreiros e bibliófilos. Cada novo verbete descoberto era anotado, religiosamente, em fichas manuais.

Elas aceleraram o passo em fins dos anos 80, quando lançaram, apenas em Portugal, uma primeira versão deste que é hoje o Dicionário do livro (que ganhou ainda uma segunda edição, em 1999). Após algumas vindas ao Brasil, onde não acharam nada parecido, decidiram editar a obra também por aqui.

– Não queríamos abordar apenas o livro em si, mas as áreas afins que o cercam – resume Maria da Graça. – É uma compilação de termos sobre a escrita.

80 tipos de escrita

E olha que, da rúnica (praticada por adivinhos escandinavos) à protoelamita (que usa ideogramas para esconder documentos de contabilidade), existem 80 tipos diferentes de escrita delimitados pelo dicionário.

Amantes da clareza máxima, as autoras optaram por incluir inclusive verbetes de cunho religioso, que podem soar esclarecedores à leitura de alguma obra antiga. De que outra forma saberíamos, no Brasil do século 21, que "ambom" é uma "estante alta existente nas igrejas onde se procede, de pé, às leituras litúrgicas"?

O Dicionário do livro é, de fato, um prodígio no quesito abrangência. Em determinados verbetes, chega a parecer redundante: mesmo "insetos" está lá, seguido de suas degradações específicas, bem como "livro para pensar" ("aquele que ajuda a viver a vida com realismo e confiança"). Haja fichas.

Couro do diabo

Se fosse para escolher um sub-tema privilegiado, poder-se-ia afirmar que as autoras dão especial atenção aos detalhes da confecção dos livros. Numa consulta à página 281 ficamos sabendo, por exemplo, que uma encadernação à la fanfare é aquela com motivos gravados a ouro, inventada na segunda metade do século 16. E, na letra C, uma aula sobre couros. Aprende-se, entre outras coisas, que o "couro do diabo" é "consistente mas maleável, destinado a cobrir livros de administração e manuais de uso freqüente". E que um dos couros mais usados em encadernação é o de cabra, cujos melhores tipos vinham do Levante ou do Marrocos.

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