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Os 200 anos da indústria livreira são esquecidos
Camila Arêas
A megalegoria da 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que começa nesta quinta-feira, traduz-se num desafio à altura: para conhecer os 210 mil títulos expostos, seria necessário folhear nada menos que 795 livros por hora. A expectativa é receber mais de 800 mil pessoas nos 11 dias da feira.
A dimensão do evento tem como apelo o potencial do mercado editorial brasileiro – que em 2006 faturou R$ 2,88 bilhões e cuja produção é a maior da América Latina. Mas o segundo maior evento editorial do mundo – que perde apenas para a Feira do Livro de Frankfurt, segundo os organizadores – esbarra em sua própria grandeza.
Inicialmente disposto a comemorar os 200 anos da indústria do livro no país, impulsionada pela chegada de dom João VI e a família real portuguesa em 1808, o evento não apresenta mesa de discussão sobre o assunto. O Espaço Literário toca no tema com as discussões sobre os 200 anos da chegada da corte ao Brasil. E nada mais.
Os caixotes abarrotados de livros que desembarcaram com a corte no Rio naquele 1808 e deram origem à Biblioteca Imperial (hoje Nacional) não ganharam destaque. A proibição, até então, da impressão e circulação de qualquer tipo de jornal ou livro também foi esquecida.
Autora de Imprensa, história e literatura e pesquisadora da Casa de Rui Barbosa, a escritora Isabel Lustosa avalia que "embora o mercado editorial brasileiro cresça a passos largos, a competição do mercado afeta a qualidade da produção":
– Já houve mais heroísmo por parte das editoras. Hoje elas carecem de livros acadêmicos. Muitos autores nacionais não conseguem ultrapassar a fronteira de seus Estados. É importante apostar em livros que não necessariamente vendem, mas garantem prestígio. Faz falta valorizar a produção da inteligência brasileira, com a publicação de teses e trabalhos acadêmicos importantes.
Se as editoras não se abrirem, profecia Lustosa, o Brasil corre o "risco de não ver nascer outro Raízes do Brasil ou Casa grande e senzala".
A historiadora Mary Del Priore – que participa do Espaço Literário ao lado de Lustosa – reconhece não ter sido convidada para falar sobre o nascimento da indústria gráfica no Brasil, mas adianta que abordará a importância do jornal que naquele início de século refletia os muitos Rios de Janeiro coexistentes:
– Os jornais mostravam uma cidade cosmopolita, incorporada à "globalização" e distante do burgo mesquinho e abandonado que a corte encontrou. Nos diários acompanha-se a mudança no consumo do brasileiro, que recebia produtos franceses e cozinheiros italianos.
Isabel Lustosa sente falta de uma homenagem a Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, editor do Correio Braziliense, que rodava em Londres e entrava clandestinamente no Brasil.
A presidente da Câmara Brasileira do Livro, Rosely Boschini, explica que a feira incluiu, tardiamente, em seu foco temático o centenário da imigração japonesa e os mais recentes títulos lançados na Espanha, em função do Congresso Ibero-Americano de Editores em São Paulo, realizado às vésperas da Bienal.
– Nossa homenagem é aos 200 anos da indústria gráfica no Brasil, mas não ficamos presos ao tema. Preferimos personalizar as salas para cada público. No Espaço Universitário, o jovem terá acesso a temas de carreira. O Fala, Professor discutirá o novo acordo ortográfico. E o Salão de Idéias destina-se aos aficcionados pela literatura.
O foco divergente da cosmopolita Bienal é reforçado por sua internacionalização. Setenta e três editoras de sete países apresentam seus catálogos na feira. São 93 convidados nacionais, 40 estrangeiros e 73 estandes internacionais.
A grandiosidade numérica e a capacidade de multiplicação dos exemplares – 4.100 lançamentos transformam-se em 2.252.000 livros em exposição – são, na opinião de Rosely, produto da imensa produção editorial conjugada aos problemas da distribuição nacional.
– Não há vitrine para tamanha oferta editorial. Apenas a menor parte dos lançamentos chega às livrarias. Temos cerca de 1.200 novos livros por mês e apenas 30% destes têm chance de ocupar as vitrines, um sério problema de exposição. Neste sentido, a Bienal é importante porque expõe o acervo das editoras.
Rosely concorda com a crítica de que o excesso de internacionalização da feira – com grandes nomes, grandes livros e a primazia dos best-sellers – a afasta dos temas regionais e afeta a qualidade da produção. A reserva, porém, não impede a organizadora de defender a inserção editorial brasileira na agenda mundial:
– A ampla adesão de autores internacionais prova a competitividade do Brasil na produção intelectual. O país não perde sua excelência para nenhum outro.
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