|
Biblioteca Nacional começa a recuperar o acervo oculto dos livros tidos como malditos
Juliana Krapp
Uma biblioteca secreta, escondida dentro da oficial. Assim é o Inferno, acervo oculto que resguarda livros tidos como imorais, malditos, proibidos. Na Biblioteca Nacional (BN), a maior do país, o Inferno era, há muito, esparramado. Mais limbo, até: feito de livros como que invisíveis, intencionalmente de fora dos registros, escondidos em prateleiras convencionais.
Pois agora, finalmente, o Inferno está virando coleção. Por lá, já estão obras como O menino do Gouveia, considerado o primeiro conto homoerótico brasileiro. E uma edição de Minha luta, o livro proibido de Adolf Hitler. Se não tivessem sido incorporados ao acervo secreto, teriam queimado no fogo da censura. O Inferno os salvou. Mas só agora, pouco a pouco, têm conseguido deixar a clandestinidade.
– São livros de temáticas variadas – conta Ana Virgínia Pinheiro, chefe da Divisão de Obras Raras da biblioteca, que organiza a nova coleção. – Em comum, apenas o fato de terem sido, em algum momento, proibidos, seja pela Igreja ou pelo Estado. E salvos.
Disfarces
Para preservá-los, bibliotecários e curadores usavam um truque tão simples quanto astuto: em vez de escondê-los, tratavam de deixá-los à mostra. Só que no lugar errado. Esqueciam-nos, como por acaso, em prateleiras indevidas. Ou faziam sua transferência para seções diferentes daquelas nas quais deveriam ser encontrados – sobretudo a de Obras Raras, de acesso restrito. Por vezes, omitiam seu paradeiro nos catálogos. E muitos deles sequer estão cadastrados no acervo.
É assim que sobrevive na BN um volume raro de O bom-crioulo, de Adolfo Caminha – só não se sabe onde. A história da paixão de um marinheiro negro por um grumete branco, publicada no século 19, foi condenada em diferentes épocas. A edição de 1985 faz parte do acervo oficial da instituição. Mas a original, de 1895, está perdida - sã e salva, porém - em alguma seção obscura. Na ficha do catálogo consta apenas a inscrição, marota: "Transferido para outro lugar".
Por isso, é difícil mensurar as reais dimensões do Inferno. Vez ou outra um livro maldito é encontrado, e integrado à coleção. É o caso deTorturas e torturados, publicado em 1966 por Marcio Moreira Alves e perseguido durante a caça às bruxas do governo militar. O volume, apesar de já existir anteriormente na biblioteca, só foi registrado no catálogo em 1988.
– O nome Inferno surgiu oficialmente em meados do século 19, na Biblioteca Nacional de Paris – conta Ana Virgínia. – Mas, de fato, já existia desde a Antigüidade, quando as bibliotecas dos mosteiros tinham uma área reservada apenas aos iniciados.
Homoerotismo
Até o dia 22 de agosto, parte do Inferno da BN pode ser visto pelo público, na mostra "Homoerotismo: prazer entre iguais". A exposição reúne cerca de 20 livros – uma primeira amostragem do que seria o Inferno restaurado.
Estão expostas obras como o Método para aprender a desenhar do francês Charles-Antoine Jombert, considerado um dos mais eficazes do século 18. Eis que, entre lições inocentes de traçado, surgem ilustrações de modelos nus, em poses dúbias: ora viris, ora feminis. Mas sem nenhuma parcimônia na exibição de intimidades. Há também o De Lvcernis antiqvorvm, aparentemente singelo livro de antiguidades, publicado por Fortunio Liceti em Pádua, em 1662. Esculturas, louças e demais ornamentos preenchem as páginas. Até que, não mais que de repente, surge uma lamparina em formato de pênis. Na página seguinte, um jarro d'água, também munido de contornos fálicos. Quase todos os exemplares existentes mundo afora tiveram as duas páginas obscenas arrancadas. Por isso, o volume da Biblioteca Nacional é uma raridade.
Afinal, ao crivo do moralismo, nem Santo Agostinho escapou. Os dois volumes da edição latina de Cidade de Deus tiveram parágrafos inteiros rasurados pelo Santo Ofício - o que, no jargão das bibliotecas, chama-se expurgar. Isso em 1661.
Molícies
Parte do Inferno chegou ao Brasil junto com a Família Real, no acervo que cruzou o Atlântico e deu origem à própria Biblioteca Nacional. Como o texto mais antigo da mostra, uma lei assinada em Lisboa, em 1597, que proíbe o "pecado de molícies que cometem as pessoas com outras do mesmo sexo". Usado originalmente para designar o "vício solitário", a palavra molície começou então a ser utilizada também para a homossexualidade feminina.
Mas na exposição não há apenas obras censuradas: há, também, as que censuram. Como o Tratado da educação física dos meninos, para uso da nação portuguesa, de 1790, que condena as famílias que põem espartilhos nos garotos. Ou o Tratado de educação físico-moral dos meninos, publicado em Pernambuco, em 1828, que condena severamente o açoite nas nádegas, "prática perniciosa, própria para fomentar costumes funestos".
De fora da exposição, mas dentro do Inferno, estão os "catecismos", romances "para meninos". E não, eles não foram inventados por Carlos Zéfiro: antes dele, nas duas primeiras décadas dos século 20, títulos salientes como Prazeres de colegial, Um marido em apuros e Chifres para todos já faziam a alegria dos leitores. Estão, agora, no Inferno. Que é, certamente, um lugar bastante divertido.
|