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Revista Inimigo Rumor comemora aniversário com edição especial
Juliana Krapp
"O que a poesia diz é difícil de engolir", afirma o poeta Carlito Azevedo. Mesmo assim, a Inimigo Rumor, revista de poesia que ele edita há 10 anos (ao lado de Augusto Massi, que substituiu Júlio Castañon Guimarães em 1999), acaba de chegar ao número 20 – e em pleno vigor.
É um feito raro na história literária brasileira, e vem acompanhado de outros tantos: a publicação freqüente de autores estrangeiros desconhecidos no país, a descoberta de alguns dos melhores poetas brasileiros contemporâneos e a participação assídua de outros já consagrados, que volta e meia antecipam textos inéditos.
– Acredito que a Inimigo seja a revista de poesia mais duradoura da História brasileira – arrisca Ítalo Moriconi, professor de literatura da Uerj. – E sua longevidade é inusitada, pois, apesar de ser uma revista de diferentes fases, teve, em todos esses 10 anos, um papel central na cena literária.
Valéry e Bolaño
Com tiragem de 1.500 exemplares e publicação a cada seis meses, a revista comemora sua primeira década com uma edição especial. Além de um dossiê sobre fotografia (com ensaios de Paul Valéry e Roberto Bolaño, e entrevista com Man Ray), traz textos de Gertrude Stein, André Sant'Anna, Nathalie Quintane e Mallarmé.
Fechando o número, como celebração maior, está um poema do cubano Lezama Lima, resultado de uma tradução coletiva. Nada mais de acordo com o espírito do projeto: o nome Inimigo Rumor foi inspirado exatamente no título de um livro de Lezama.
Revistas de poesia fazem parte da tradição literária brasileira. Basta lembrar a Klaxon e a Revista de Antropofagia, ambas frutos do modernismo; ou a Invenção, ligada ao concretismo, e a Navilouca, da Tropicália; a partir dos anos 70, surgem Código, Corpo Extranho e o Almanaque Biotônico Vitalidade, entre outros; mais tarde, Azougue, Cacto e Coyote. A Inimigo, no entanto, sempre teve marcas personalíssimas.
– A idéia que todo o mundo tem de poesia é que é algo que vai acabar logo. Pois o objetivo da Inimigo foi, desde o início, fazer da poesia um projeto a longo prazo – explica Carlito. – Dessa forma, não precisávamos publicar um poeta novo só porque ele é novo. Podíamos esperar o tempo que fosse para publicar aqueles que são de fato bons poetas.
Foi assim, na busca serena pelo que há de melhor – e mais diverso – na poesia, que a Inimigo publicou no Brasil, pela primeira vez, poetas estrangeiros como Nathalie Quintane e Adília Lopes. Foi também que revelou ao público autores hoje já consagrados, como Marcos Siscar; e, entre os novíssimos, nomes como Angélica Freitas e Marília Garcia, duas das mais festejadas poetas contemporâneas.
– A poesia não é fácil. Todos procuram respostas simples e sentidos únicos, mas a convivência com a poesia ensina que não existem sentidos únicos. Por isso o que ela diz é tão difícil de engolir. Para a poesia, nenhuma experiência humana pode ser esquecida – conclui Carlito.
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