25 de julho de 2008
 
Angra e Paraty temem favelização

Moradores acham que a construção de nova usina vai causar crescimento desordenado da região

Gabriel Costa

A construção da usina nuclear Angra 3 pode trazer problemas para as cidades de Angra dos Reis e Paraty. O fluxo migratório para a região, causado pela necessidade de mão-de-obra é estimado em 30 mil pessoas, segundo a Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (Sapê).

– Isso contribui para o crescimento urbano desordenado da região. Nenhum estudo orienta como conter ou receber esse fluxo, que obviamente não será absorvido ao final da obra. Na época da construção de Angra 2, a população da cidade passou de 90 mil para 130 mil pessoas – lembra o coordenador da Sapê, Rafael Ribeiro.

Angra 3 terá uma capacidade de 1.350 megawatts, um número pequeno em comparação com a capacidade instalada da matriz energética do país. O professor de planejamento energético do Coppe/UFRJ, Emilio La Rovere, acha que a produção energética da usina poderia ser suprida por outras fontes.

– Com o avanço do setor do álcool, haverá um excesso de produção que poderia ser repassado a preços bem competitivos, até mais baratos que a energia nuclear – disse o professor, que considera "otimistas" os prazos estabelecidos para o cumprimento das 60 exigências impostas pelo Ibama para que a usina entre em funcionamento.

Condições

Entre as exigências, estão a contratação de uma empresa independente para o monitoramento da radiação e a realização de obras de saneamento básico em Angra dos Reis e em Paraty. A Eletronuclear também deverá assumir os custos de manutenção da Estação Ecológica Tamoios e do Parque Nacional da Serra da Bocaina e realizar projetos de educação ambiental nas comunidades. A estatal informou que nem todas as condições precisam ser cumpridas antes do início das obras.

O presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), Odair Dias Gonçalves, acredita que alguns itens devem ser rediscutidos conforme o cumprimento das ações.

–Todas as condições são passíveis de serem cumpridas, mas há algumas pouco usuais, como a que proíbe a pesca de arrastão na região – disse o presidente da Cnen.

A lista também inclui ações na área de saúde. A Eletronuclear vai ter de apresentar os resultados dos estudos técnicos desenvolvidos pela Fiocruz sobre possíveis efeitos de radiação, a longo prazo, na população dos arredores das usinas.

O coordenador da Sapê, no entanto, critica a falta de transparência dos dados das usinas do projeto nuclear da região.

– Nós ouvimos que as usinas fazem um monitoramento ambiental, mas esses dados não são públicos – disse Rafael Ribeiro.

O consenso é que a questão crucial do projeto é o armazenamento dos resíduos produzidos.

– Com Angra 3, a produção de resíduos deve aumentar em cerca de 60%. É preciso que seja construído um depósito em local com estrutura geológica estável, longe de centros urbanos. As dificuldades técnicas não são grandes, as políticas são maiores – disse o professor Emilio La Rovere, do Coppe/UFRJ.

Segundo Leonam dos Santos Guimarães, assistente da presidência da Eletronuclear, estatal responsável pela construção da usina, há um estudo de locais até 50 quilômetros dos complexos, mas a discussão deve ser feita já levando em conta a localização das usinas que serão construídas depois de Angra 3, prioritariamente no Nordeste.

– É importante ressaltar que o gerenciamento dos rejeitos segue uma convenção internacional, da qual o Brasil é signatário. Nada aqui é diferente do que é feito no resto do mundo – disse Leonam.

A estimativa do custo da construção de Angra 3 é de R$ 7,2 bilhões, e a previsão é que a usina fique pronta até 2014.

[ 25/07/2008 ]   02:01