30 de janeiro de 2007
 
Crédito: Remuneração de bancos pesa mais que juros

Fernando Nakagawa

BRASÍLIA. O juro já não é o fator que mais pesa na hora de os bancos determinarem o custo de um empréstimo. Estudo do Banco Central divulgado ontem revela que o spread bancário - diferença entre o custo que o banco tem para captar o dinheiro e o valor que cobra nos empréstimos - desbancou a taxa básica da economia (Selic) e passou a ser o principal componente que onera as operações de crédito do sistema financeiro. Nos empréstimos ao consumidor, por exemplo, mais de dois terços do valor pago pelo crédito vai direto para os cofres dos bancos. No crédito a empresas, esse percentual ultrapassou 50% pela primeira vez no ano passado.

Em dezembro, a taxa paga nos empréstimos para a pessoa física era composta por 76% de spread bancário e só 24% de juro propriamente dito. Para se ter uma idéia, em setembro de 2005, mês em que o Banco Central começou a reduzir a Selic, a proporção era de 71% e 29%.

- De fato, o custo de captação (Selic) tem influenciado cada vez menos - analisa o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes.

Nas operações para as empresas, a fatia que vai para os bancos atingiu, em dezembro, 51,3% do valor total do empréstimo - 48,7% eram custos de captação. Em setembro de 2005, o custo ainda era majoritariamente determinado pelo juro (captação), que respondia por 58,3%. Os números derrubam a tese de que a Selic é determinante para o nível de juro praticado pelos bancos. Dentro do spread, estão fatores como o risco de inadimplência, tributos, custo do compulsório e o principal deles: a margem de lucro.

Não há muita clareza na divulgação dessas informações pelas instituições financeiras, mas o ganho do empréstimo está concentrado no custo administrativo e nos chamados resíduos. Os dois fatores correspondem a 41,36% do spread. Os dados também contradizem discurso das instituições que jogam parte da culpa dos juros altos na chamada cunha fiscal. Tributos respondem por 17,67% do spread, menos que o custo administrativo dos próprios bancos, que está em 21,56%.

No ano passado, o spread médio caiu 1,4 ponto percentual, para 27,2 pontos. Nas operações para o consumidor, a queda foi de 3,2 pontos, para 39,6 pontos. Para as empresas, redução mais tímida, de 0,3 ponto, para 13,5 pontos.

O crédito, no entanto, manteve o ritmo chinês de expansão, graças ao aumento da renda, maior dinamismo de pequenas e médias empresas e o juro em queda. No ano passado, o total de empréstimos do sistema financeiro cresceu 20,7% e atingiu R$ 732,835 bilhões. O valor equivale a 34,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 12 meses, a proporção crédito no PIB cresceu 3,1 pontos percentuais.