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Rafael Sento Sé Quem são as quatro mulheres que fazem a sinopse e cuidam da programação dos canais eróticos As amigas Taís Martins e Carolina Pacheco, ambas de 23 anos, analisam com tristeza o roteiro de programação do Festival do Rio. Enquanto cinéfilos de carteirinha estarão assistindo ao novo do David Lynch ou do Tarantino, as duas estarão ligadas num aparelho 14 polegadas vendo filmes na linha de Abrindo o próprio negócio, Metrix, Sob o sol sacana da Toscana e Baguetes e rosquinhas, alguns dos 400 títulos do acervo dos canais Sexy Hot, Playboy TV e For Man, da TV a cabo. Com as também jornalistas Antonia Canto, 25 anos, e Marcela Leone, 26, as quatro montam a programação e escrevem as sinopses de todas as atrações da grade. "Dos filmes que estão no ar, assisti a todos. Tenho que conhecer bem os lançamentos, uns 20 por mês", diverte-se Carolina, há um ano no canal. Já se habituou às imagens dos três monitores da sala onde trabalha. Ali eles exibem, ininterruptamente, o que está no ar. Para não entrar muito nos detalhes, pode-se dizer que é pura sacanagem. Casada há três meses, o tema acabou se tornando assunto recorrente nas conversas com o marido. "O problema é que às vezes a gente esquece que está no bar e acaba falando besteira em voz alta", conta Carolina. No ambiente de trabalho, falar baixaria é praticamente um pré-requisito. Nada de pênis ou vagina. As meninas dão nomes mais comuns aos bois. "Escrevo coisas que não consigo imaginar que fui eu. Você acaba se dando conta de que todos os palavrões viraram uma boa parte de seu vocabulário", resigna-se Taís, que fez curso de história da arte, no ano passado, na Universidade Autônoma de Madri e acabou de ler o último Harry Potter. Gostar de cinema também conta pontos, especialmente na hora de traduzir os títulos para o português. Sob o sol sacana da Toscana é um dos preferidos das meninas, que também acabam dando dicas de filmes pornôs para os amigos. Taís prefere os franceses, que não são apenas sacanagem, têm produção e trama. Carolina assistiu a algumas das dezenas de continuações do clássico Emanuelle. "Há um que se passa no Rio. É uma coisa bem praia, muito estereotipado, só samba e sexo", justifica. Uma pergunta fundamental para quem está chegando ao canal para trabalhar é se o candidato tem algum problema com conteúdo erótico. Todas responderam não, mas o estranhamento é inevitável. "Para mim, o mais difícil era ver travesti com mulher", admite Taís. Já a maior implicância de Antonia não tem nada a ver com combinações ou posições. "E quando você começa a reparar que a lingerie é sempre a mesma? Existe uma produtora nacional que só usa o mesmo sofá verde de couro, é nojento", queixa-se Antonia. "Mas o filme do sofá está sempre entre os favoritos". Com cinco anos de Sexy Hot, a mais experiente do grupo já adquiriu o hábito típico de noveleira: "Esse ator não é aquele do Pornô chic?". O fato de ter estagiado no Laboratório de Esquistossomose da Fiocruz pesou quando fez a dinâmica de grupo para entrar no canal. "Contei que já tinha trabalhado com caramujos e que dissecava ratos. Viram que eu não tinha frescura", lembra Antonia, que faz aulas de Krav Magá e é fã de grupos vocais. A quarta mosqueteira, Marcela Leone, começou a trabalhar no canal escondida do pai evangélico. Estava no GNT até o dia em que foi transferida para o For Man, dedicado ao público gay. Só contou no dia em que o pai perguntou sobre a vida profissional, e a conversa foi séria. Ele não entendia muito bem o que o trabalho tinha a ver com jornalismo. No fim veio aquela pergunta clássica de pai contrariado: "Você está feliz?". Parece que sim. E não só com o trabalho. Viciada em samba, a funcionária toca chocalho nas baterias do Salgueiro e da Unidos da Tijuca e ensaia três vezes por semana. Ainda arruma tempo para fazer uma pós em marketing. Mesmo as mais experientes do canal ainda se surpreendem. "Volta e meia você vê umas coisas, a cabeça das pessoas tem perversões sem tamanho", assegura Carolina, que já viu até ator fazendo cara de tesão com uma caveira. Não pode anão, sexo com animais, mulher grávida e closes. É função das meninas cortar cenas que possam chocar. E é bom que se diga: elas vêem os filmes no fast-forward.
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