25 de julho de 2008
 
‘Arquivo X’: e os anos se passaram

Diretor da série e do filme diz que relacionamento entre Mulder e Scully tinha que mudar

Mark Harris

THE NEW YORK TIMES

Chris Carter, o criador de Arquivo X, tem uma mensagem para todos aqueles que, em algum momento da nona temporada da série original, jogaram suas mãos para o céu tentando entender exatamente o que estava acontecendo, entre abduções alienígenas, os ETs do óleo negro, os implantes de metal nos ouvidos, o Sindicato, o Canceroso, a irmã de Mulder, o bebê de Scully, o pai de Mulder, o câncer de Scully, os colonos, o Garganta Profunda e todo o resto da complexa (e freqüentemente obscura) mitologia do programa:

Vocês já podem voltar.

É claro que há aqueles que nunca partiram, que mantiveram Arquivo X vivo desde o fim da série, há seis anos. E o senhor Carter ficará deliciado se eles aparecerem precisamente às 12h1 de hoje, o dia em que estréia Arquivo X – Eu quero acreditar, sua tentativa de ver se ainda há uma audiência lá fora para as investigações paranormais dos agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson). Mas Carter e o estúdio 20th Century Fox estão interessados especialmente nos espectadores eventuais, que podem se afastar do filme com medo de que tenham de fazer 202 horas de dever de casa antes de ir ao cinema.

Não há necessidade. Eu quero acreditar é, no jargão de Arquivo X, um caso isolado: uma história completa, que faz lembrar de vários episódios do começo da série nos quais Mulder e Scully eram despachados para algum remoto (mas sempre vagamente parecido com o Canadá) lugar, e confrontavam alguma presença ameaçadora e indefinida. Carter promete não apenas sustos, mas um começo, um meio e um fim, sem conexões exageradas com o passado da série. Todos, incluindo os novatos, estão convidados a bordo.

Nada disso era uma certeza quando a série saiu do ar. Duchovny tinha abandonado a produção no ano anterior, talvez por estar cansado do clima pesado nos bastidores. Gillian Anderson ficou até o fim, mas no limite das forças. Duchovny, 47 anos, estrelou vários filmes e agora está no seriado Californication (exibido no Brasil pelo canal pago Warner Channel). Gillian, 39, mudou-se para Londres, onde se estabeleceu-se no teatro, na TV e no cinema.

– Certamente havia várias relações a serem reparadas entre David e eu – diz Carter.

Gillian hoje comenta:

– No fim, eu sequer sabia quando teria vontade de pisar num estúdio de filmagem de novo. Tudo era tão cansativo, eu só queria escapar. Tentei ampliar meus limites em outros tipos de papéis, me policiando para evitar qualquer trejeito que lembrasse Scully. Quando voltei a incorporá-la, meu cérebro entrou em parafuso.

Carter tinha uma idéia para um novo filme quando a série acabou. O projeto foi engavetado quando ele e a Fox entraram em litígio sobre direitos autorais, em 2006.

– Resolver essa disputa levou mais tempo do que eu antecipara – conta o produtor. – Mas, no dia em que meus advogados me ligaram dizendo "Acabou", o estúdio estava na outra linha, perguntando se eu queria fazer o filme, afinal.

A demora em retomar Arquivo X obrigou Carter a pensar numa nova abordagem, não em relação à trama, mas aos personagens. O filme deixa claro: vários anos se passaram desde os eventos da temporada final.

– Pensamos numa história que era assustadora, perturbadora – conta Frank Spotnitz, que divide com Carter a produção e o roteiro do longa. – Mas percebemos que o relacionamento entre Mulder e Scully tinha de mudar, por causa do tempo que se passou. O filme se concentra nos dois.

Ambos os atores estavam entusiasmados com a perspectiva de uma aventura que não precisasse se escorar nas labirínticas tramas da série original.

– Nunca consegui entender a história direito – admite Anderson, rindo. – Algumas pessoas, que passaram um bom tempo cavucando os episódios, podem ter achado algum sentido, mas eu me perdi completamente.

Duchovny diz que recebeu muito bem o roteiro.

– É uma chance para que os personagens possam começar do zero, reinventar a si mesmos. E a mitologia ainda existe, mesmo que não fique evidente. Os fãs antigos da série vão conseguir entender melhor alguns momentos e reações.

Perguntado se, afinal, Mulder e Scully finalmente viverão um romance, Carter se diz perplexo.

– Nunca quis domesticar a série, transformá-la num programa sobre um casal. O que importa é a busca que eles fazem juntos.

Gilian Anderson conta que costumava achar a idéia de um namoro entre os personagens ridícula. Mas agora não mais:

– Sempre perguntava a mim mesma: o que há de tão especial sobre esse dois? Só que, enquanto rodávamos o filme, alguém me enviou um vídeo do YouTube com uma montagem de cenas da série. Eram clipes mostrando a intimidade crescente entre Mulder e Scully ao longo dos anos. Era muito tocante. Finalmente consegui entender a curiosidade dos fãs. Mas se tivéssemos dado a eles o que queriam acabaríamos arruinando o programa.

[ 25/07/2008 ]   02:01