25 de maio de 2008
 
Escritores não são mais as estrelas da festa em Paraty

Diretor de programação estreante justifica convite a nomes como Neil Gaiman

Juliana Krapp

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada em 2008 de 2 a 6 de julho, está cada vez mais distante de ser uma farra exclusiva dos escribas. A programação, embora ainda não inteiramente fechada, aponta decerto para a diversidade: entre as 14 atrações internacionais já confirmadas (serão 20 ao todo), ao menos três têm destaque em outras áreas. Quem confirma a opção eclética é o próprio diretor de programação do evento, Flávio Moura.

– Nossos convidados são romancistas e críticos, romancistas e roteiristas, e não uma coisa só. Ou seja: é forte, na maioria deles, o trânsito entre diferentes campos – justifica Moura, estreante no comando da programação. – O que quero é promover um diálogo efetivo entre áreas afins da literatura, sem que esta deixe de ser o cerne da festa.

Um exemplo desse diálogo é a presença do dramaturgo Tom Stoppard, nome mais recente divulgado pela organização da festa. Apesar de ter publicado seus roteiros em livro (por aqui, lançou em 1999 o de Shakespeare apaixonado, pela Rocco), não é, stricto sensu, um escritor. O mesmo podemos dizer de Lucrecia Martel, cineasta argentina conhecida no Brasil por seus festejados O pântano e A menina santa.

Mudanças no campo literário

A respeito de Neil Gaiman, outro nome aguardadíssimo, teríamos que modificar um pouco a sentença: o pai de Sandman é autor também de alguns romances. Mas certamente é sua habilidade como roteirista de quadrinhos, e não como prosador, que mantém sua legião de fãs.

Essa abertura ao diálogo com outras áreas tem, para Moura, uma explicação que diz respeito às próprias mudanças no campo literário.

– Há 50 anos, a literatura tinha uma presença no cenário cultural que não é mais a mesma. Hoje ela já viveu, e vive, os desafios do diálogo com o cinema, com as novas tecnologias, com a indústria cultural – explica. – Ou seja, a literatura está sendo posta constantemente à prova. Mas o diálogo com as outras áreas pode, ainda, enriquecê-la.

Para tal, a escolha dos participantes da festa correspondeu a critérios muito bem definidos, prossegue Moura:

– Lucrecia Martel, apesar de cineasta, apresenta particularidades em sua linguagem no cinema que têm muito a ver com literatura.

A escolha da diretora, bem como a de Stoppard, foi feita pela organização da Flip, e não de acordo com os pedidos das editoras, como de costume. Moura aposta alto na presença do dramaturgo: acredita que, por ser pouco conhecido no Brasil, deve aproveitar ao máximo a estada em Paraty para tornar-se popular também por estas bandas.

Mas nada, é claro, que se compare ao colombiano Fernando Vallejo – que, além de escritor, é cineasta – o grande polemista desta edição. Tanto em seus livros quanto em suas entrevistas, o autor do recém-lançado O despenhadeiro não poupa críticas ferrenhas à Igreja, ao governo e aos colegas escritores.

Lidar com essa diversidade – mais do que selecioná-la e levá-la até Paraty – é agora o grande desafio de Moura, um jornalista de 29 anos. Apesar de garantir que já tem um esboço das mesas, ainda não revela a forma final dos debates, tampouco os nomes que ainda faltam para fechá-la. Apenas confirma que vem tentando a adesão da portuguesa Inês Pedrosa, e que havia convidado o espanhol Javier Marías e o argentino Tomás Eloy Martínez, que não puderam aceitar.

O flerte com a literatura em língua espanhola – sobretudo a latino-americana – também é assumido pelo programador. Este ano, além de Lucrecia e Vallejo, vem à Flip o argentino Martín Kohan, vencedor do último Prêmio Herralde.

– Kohan é um autor que, com certeza, se tornará mais presente no Brasil. É dono de uma dicção muito particular, tem uma formação refinada e, apesar de relativamente jovem, se dedica à literatura de diferentes formas. Dá aulas de teoria literária em Buenos Aires, por exemplo – conta Moura. – O cenário latino-americano é riquíssimo, com novas revistas e autores ótimos surgindo a todo o instante, e o Brasil geralmente não os observa como deveria.

União de sócios

Quanto a seu relacionamento com as editoras – outro desafio para qualquer programador, levando-se em conta as pressões envolvidas em um evento de tais dimensões – Moura afirma apenas que tem mantido um "diálogo importante" com todas elas, e que "a coisa é como uma união de sócios, que tem que ser boa para todos os lados".

Com tantos nomes de destaque no rol de atrações, o programador hesita também em apostar numa grande estrela da festa.

– Temos o Gaiman, que é bastante esperado. Também tenho expectativas quanto à atuação de Stoppard – enumera. – O Cees Nooteboom é fora de série. E há ainda o Vallejo, cujo caráter polêmico terá desdobramentos.

Por ora, os nomes internacionais confirmados são Alessandro Barrico, Cees Nooteboom, David Sedaris, Elizabeth Roudinesco, Fernando Vallejo, Lucrecia Martel, Martin Kohan, Nathan Englander, Neil Gaiman, Richard Price, Pierre Bayard, Tom Stoppard, Tony Judt, Zoe Heller. Entre os nacionais, Modesto Carone, Contardo Calligaris, Humberto Werneck, Lorenzo Mammi, Vanessa Barbara, Emilio Fraia e Vitor Ramil.

[ 25/05/2008 ]   02:01