|
Logo nos primeiros dias da ditadura oficial (a branca continua a todo o vapor), descobriram que a Barra da Tijuca era o lugar mais bonito do mundo. Bonito assim, porém, ele pouco valia. Era preciso enfeá-lo para ele dar dinheiro. Uma gangue de empreiteiros se reuniu e resolveu fazer condomínios particulares. A idéia de Lúcio Costa até que não era má. Teríamos belíssimos espigões a cada cinco quilômetros e os demais terrenos poderiam ter prédios de no máximo cinco andares, o que não arruinaria a paisagem. Mas estamos no Brasil, único país do mundo em que as pouquíssimas leis favoráveis aos pobres que passaram pelo Congresso duraram muito pouco. Não pegaram. Isso aconteceu com as boas intenções de Lúcio e hoje a Barra é um dos lugares mais feios do mundo, sem a menor disciplina harmônica na arquitetura, sem parques ou floras, sem ruas e sem esquinas e, conseqüentemente, com pouquíssimos botecos. Como praticamente não tem ruas, mas apenas avenidas onde os carros passam em altíssima velocidade, é difícil sobreviver – seja de morte morrida, seja de morte matada – na Barra da Tijuca. Não levará muito tempo para a Barra transformar-se numa Avenida Brasil e adjacências, sem esquinas, sem botecos e sem segurança.
É que em frente ao que os desavisados pensam que é o paraíso está o verdadeiro paraíso, que são as favelas. Mais desconfortáveis, jamais receberam ajuda da prefeitura ou do estado, mas, como a flor cinzenta do Drummond, cuja ânsia de viver era tão forte que conseguia furar o asfalto, transformaram-se em bairros que têm gente honesta e traficantes. De vez em quando esse pessoal – a turma do mal, digamos assim, com certa ironia – resolve descer ao asfalto e assaltar todos os carros que passam pelos túneis na hora do rush. Volta e meia escapa um morto. Os ricos e riquíssimos estão presos em suas fortalezas de vidros fumê e belíssimas samambaias.
Claro que isso não precisaria ter acontecido. Até uns 20 anos atrás, bastava dar o mínimo de condições para os pobres transformarem suas favelas em bairros enquanto se fazia a reforma agrária no resto do país. Hoje é tarde. O crime organizado já tomou conta do morro há muito tempo e inspira mais confiança nos moradores do que os policiais que sobem a comunidade atirando a esmo. Crianças que nascem sem valores, como seus pais adolescentes, logo descobrem que o crime compensa mais do que o trabalho e que, para a vida que vivem, morrer não faz tanta diferença.
Há alguns anos, alguns ricos filhinhos de papai resolveram que não queriam ser confundidos com os demais e fizeram um plebiscito que, se vencido, poderia transformar a Barra num município independente, onde teriam ocasião de deitar e rolar, fazendo leis de acordo com o interesse de cada sócio, pois, mais do que uma cidade, seria um gigantesco country club. Na época sugeri que transformassem a Barra num país estrangeiro com passaporte e todos os encargos que um país exige, mas fui voto vencido e a Barra é o que é: uma favela de luxo, cujos moradores não ousam sair de seus condomínios e ainda têm de dar graças ao Diabo, pois os xerifes da favela são de direita e, como os xerifes aqui de baixo, só têm um deus, o poderoso Grana.
Na Bolívia, apavorados com a possibilidade de não terem os escravos necessários na hora de carregar uma mala, os riquíssimos moradores do Departamento de Santa Cruz fizeram um plebiscito ilegal no sentido de separar-se do resto do país, habitado por índios incas, camponeses, pobres, escravos há quatro séculos. Ganharam o plebiscito, mas não vão levá-lo, por ser inconstitucional. Onde está, então, o perigo: o plebiscito foi o primeiro passo para uma nova tentativa de golpe, naturalmente financiada pelos Estados Unidos. Não é à toa que Bush já nomeou como embaixador na Bolívia o temível Philip Goldberg. Este agente do imperialismo ficou famoso pelas ações de estímulo ao separatismo nos Bálcãs, na chamada Missão Kosovo. Goldberg é conhecido como especialista em jogar gasolina sobre o fogo de conflitos étnicos e por sua intervenção e experiência nas lutas desde a Bósnia até a separação da ex-Iugoslávia. Seu passado "diplomático" inclui o golpe no Haiti que derrubou Jean Aristide e a militarização do Plano Colômbia. Das vitórias eleitorais de esquerda, a que corre mais perigo é a da Bolívia. Enquanto Evo Morales quer urbanizar a maioria do resto do país – cortiços e favelas; dar ao seu povo educação, saúde, transporte, trabalho e dignidade, a elite burguesa, filhotes da sanguinária ditadura de Hugo Banzer, quer transformar Santa Cruz num novo estado americano; querem manter a escravatura. Estou com Esquivel, Prêmio Nobel da Paz, que não só conclama os homens de bem a ajudarem a Bolívia, cercada por lobos fascistas, como pede o Prêmio Nobel da Paz deste ano para Evo Morales. Soldados americanos estão espalhados por todos os países da América Latina, assim como têm campos de concentração nos quatro cantos do mundo.
Parabéns a Lula por não ter aceitado como legal o plebiscito. Os homens de boa vontade esperam, aflitos, que não mude de idéia.
|