08 de maio de 2008
 
Risos, risos, para festejar

Marcos Chaves abre a exposição ‘É da sua natureza’ no Oi Futuro, empregando humor e tecnologia para promover intervenções na paisagem urbana

Clara Passi

A sisudez do corre-corre à saída da estação do Metrô no Largo do Machado ganha hoje uma interferência surreal: um contêiner lacrado, de 6 x 2,4m, que emite, sem parar, sons de gargalhadas. Trata-se da instalação Risos contidos, ponto de partida para a exposição individual É da sua natureza, de Marcos Chaves, que ocupa o Oi Futuro, no Flamengo (próximo ao metrô), a partir de domingo. A obra de arte que vai injetar doses inesperadas de humor no trajeto de pedestres é uma das 50 da mostra, incluída nas comemorações do aniversário de três anos do Oi Futuro.

Risos contidos foi montada pela primeira vez há três anos, em Cardiff, capital do País de Gales, num festival que reuniu artistas de cidades portuárias. Os risos capturados pelo gravador digital de Chaves, que farão cócegas nos ouvidos cariocas, são os mesmos que divertiram os galeses.

– No fim de semana em que montei a instalação, havia um show do rapper 50 Cent e a cidade estava lotada. Os bêbados tentaram abrir o contêiner, acreditaram que uma festa se espremia lá dentro – diverte-se.

O artista soube, pela organização do festival, que o prefeito de Cardiff recebera queixas de empresários que sofriam com a distração que a caixa gargalhante causava a funcionários.

– O melhor é que o prefeito me apoiou!

O estilão carioca e arrojado do artista plástico de 47 anos, 20 de carreira, vai ao encontro da proposta do centro cultural, voltado para abrigar manifestações artísticas que brotem de suportes tecnológicos.

– Meu ateliê é meu laptop – diz, pondo para rodar vídeos capturados pela pequena câmera digital que carrega constantemente no bolso.

Chaves não pensa pequeno: continuando o percurso iniciado no metrô, o visitante dará de cara com a fachada do centro cultural coberta, do chão ao cume, com faixas amarelas e pretas, que remetem às da sinalização urbana. Tais fitas, que servem para orientação, direcionamento e impedimento nas ruas, são decodificadas pelo artista.

Alberto Saraiva, curador do Oi Futuro, endossa os devaneios do artista:

– Marcos está afinado com as questões da arte contemporânea mundial. Mescla o local, carioca, ao global.

Do varandão da casa-ateliê na Rua Aprazível, em Santa Teresa, que faria ruborescer até a mais chique revista de decoração, Chaves só consegue avistar a Baía de Guanabara por entre as folhas largas de uma amendoeira. Essa intersecção entre a civilização e a natureza é uma constante na arte do carioca nascido e criado no bairro. Tanto é que, ao entrar na galeria do Oi Futuro, o visitante vai se deparar com um painel de 5 x 1,80m intitulado Pontos de fuga, composto por 12 fotos de uma trepadeira entrançada a uma grade, com o Pão de Açúcar ao fundo, em diferentes ângulos. A peça, que mostra a natureza amenizando a cidade e a planta amolecendo a dureza do metal, foi escolhida para ilustrar o convite para abertura da exposição por sintetizar o binômio espaço urbano e natureza.

– O carioca passou a ver tudo através de grades – comenta.

Adornando os três cômodos, amostras de trabalhos expostos em bienais, como um Buda coberto de pedacinhos de espelho, posicionado de modo a esmigalhar o sol da tarde em bolinhas, e ampliações de trabalhos fotográficos. O mais famoso desses, de 1997, é Eu só vendo a vista, em que a frase atravessa uma vista aérea do Pão de Açúcar. A versão em vídeo foi premiada no 16º Salão Nacional de Artes Plásticas.

A arte de Chaves é ligada umbilicalmente ao Rio. Alimenta-se de passeios diários nas Paineiras e em outras áreas de beleza verde. Por isso, ele não cogita despedir-se do Cristo rumo à Europa, onde pulsam grandes galerias e festivais. Se quisesse, não seria por falta de convite. Este ano, fez mostra solo em Madri e, na última década, participou de coletivas no Japão, Finlândia, Suécia, Noruega, Suíça, Alemanha, Portugal, Espanha, França, País de Gales, México e Chile. Fez residência em Topolò, vilarejo encarapitado numa montanha na fronteira Itália-Eslovênia, e, em julho, participa da Manifesta7, bienal de arte contemporânea em Bolzano, Itália.

– Não sou o único a não querer sair do Brasil. Adriana Varejão, Cildo Meireles e outros que fazem sucesso lá fora não pensam em emigrar. O Rio tem a simpatia e a generosidade natural de que preciso.

[ 08/05/2008 ]   02:01