20 de abril de 2008
 
ONG põe violinos nas mãos das crianças

Orquestra da Chapada do Araripe muda o rumo dos jovens

Monique Cardoso

Araripe

Aos 11 anos, Fabrício Rodrigues de Alencar começa a se destacar nos estudos de violino, iniciados há um ano. Pratica cinco vezes por semana e já integra uma promissora orquestra de cordas. A mãe, Maria Socorro, achava que estava na hora de ele ter uma ocupação, mas foi surpreendida pelo talento do garoto. A primeira grande apresentação de Fabrício foi esta semana, na II Mostra Brasileira de Música Antiga. Fabrício vive na pequena Araripe, no Cariri, sul do Ceará.

– Fizemos o melhor do nosso repertório – descreve, com desenvoltura. – Ainda não tivemos muitas apresentações. Por isso a sensação foi ótima, principalmente por ter conseguido tocar sem erros uma música tão maravilhosa.

O garoto mora com os pais e um irmão mais novo, que começou a ter aulas de música recentemente, numa casinha com alpendre nos fundos, no mesmo terreno dos avós. A família vive com um salário mínimo por mês, que Francisco ganha como funcionário público. A renda é complementada pela venda da produção de milho e feijão.

– É uma emoção e tanto ver meu filho ali, nem tenho como explicar. Foi bom o pai ver, pois vive me dizendo: "Mulher, é muito corrido para o menino estudar". É besteira, porque os dois têm ótimas notas – conta Socorro.

As crianças estudam música graças a um projeto subsidiado pelo Fundo Brasil Canadá e administrado pela ONG Instituto Atos, organizadora da Mostra Brasileira de Música Antiga, que acaba hoje à noite com concerto da Orquestra Filarmônica da Chapada do Araripe, na qual o menino toca. No mesmo palco, apresentam-se a soprano paranaense Marília Vargas, radicada na Suíça, e a gaúcha Silvana Scarinci, no teorba. Encerra a extensa programação o argentino Pablo Lerner, que, depois de uma temporada em Budapeste, trouxe ao Brasil, pela primeira vez, a curiosa e instigante viola de roda húngara.

Durante a mostra, os meninos-músicos receberam a visita e uma aula preciosa do violinista Zoltan Paulinyi, do Trio Sonare, de Brasília. Na orquestra, Fabrício tem um amigo inseparável, Daniel Severo da Silva, de 10 anos. Entre os mais bem preparados do grupo, a dupla não esconde os risinhos quando um colega erra diante do artista. Fabrício já aprendeu a ler partituras, Daniel ainda não.

Fundador da ONG e idealizador da mostra, Elisandro Carvalho, nascido e criado em Araripe, como Fabrício e Daniel, teve o primeiro contato com a música clássica quase adulto, na discoteca do seminário de Fortaleza, onde estudou. Criou o Instituto Atos em 2004 e desenvolve projetos de cultura, educação e meio ambiente. A maior parte das crianças é filha de quebradores de pedras. O primeiro grupo formado foi a orquestra de rabecas Cabaças e Cordas. Já a filarmônica foi criada em 2006, quando chegaram os primeiros 45 instrumentos de corda, comprados com R$ 70 mil do Fundo de Combate à Pobreza. Elisandro espera conseguir mais R$ 130 mil até o ano que vem, para formar o naipe de sopros e reunir 75 instrumentistas.

– Nossa intenção é que levem para casa o que aprendem aqui – diz. – Ainda choro quando vejo estes meninos ensaiando. A música clássica não tinha nada a ver com a vida que levavam até agora. São tão interessados em música que ficam aqui mesmo fora do horário.

Monique Cardoso viajou a convite da organização da II Mostra Brasileira de Música Antiga

[ 20/04/2008 ]   02:01