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Kristina Augustin e Mario Orlando abrem série no Ceará
Monique Cardoso
Araripe, CE
A chamada música antiga, que veio da Europa com as primeiras caravelas portuguesas, encontra-se, a partir de hoje, com uma de suas descendentes diretas, a música nascida do cancioneiro popular do Nordeste, na 2º Mostra Brasileira de Música Antiga, em Araripe, cidadezinha do sertão do Cariri, interior do Ceará. Na abertura, sobem ao palco, ou melhor, ao altar da Igreja da Matriz, o duo de viola da gamba formado por Kristina Augustin e Mario Orlando, expoentes no instrumento. Até domingo, artistas de formação clássica e popular de várias partes do Brasil farão cerca de 30 apresentações e devem atrair 30 mil espectadores.
– O Brasil é uma imensidão. Temos de sair das capitais e chegar ao interior e conhecer o que acontece nessas cidades – defende Kristina.
Renascença, barroco e colonial
A dupla faz dois concertos, com repertórios distintos, que vão desde a música da renascença às composições barrocas e coloniais. A musicista, que tocou em Araripe na primeira edição da mostra, em 2006, explica que esse gênero musical está fortemente ligado à música do Nordeste, porque em ambos há grande influência de elementos da tradição oral.
– Uma rica herança do cancioneiro português que veio com os colonizadores ficou no Nordeste. O mesmo não aconteceu no sul do país. Nas duas manifestações habitam a figura do compositor anônimo e a tradição oral. A essência é européia, mas ganhou cor local – descreve a musicista.
As apresentações de Kristina e Mario, cuja afinidade musical começou há 25 anos, são marcadas pela conversa com a platéia, uma vez que a viola da gamba, fora dos grandes centros, não é um instrumento muito difundido.
O primeiro concerto, hoje às 19h, traz peças dos séculos 16 e 17, de compositores como o espanhol Diego Ortiz e o francês J. Bodin de Boismortier. No segundo, amanhã, os dois explora obras concentradas no barroco, de maior dificuldade técnica e virtuosística. Em junho, a dupla, integrante do Quadro Antiquo, vai em turnê com o grupo para Portugal.
– Vamos fazer o caminho inverso, levar modinhas e lundus, a música brasileira do século 19, para lá – adianta.
A mostra promove uma invasão sonora na pequena cidade, vizinha a Juazeiro do Norte. Durante cinco dias, a população local, estimada em 20 mil habitantes, e a da região recebem uma overdose de estilos musicais, em cinco ou seis espetáculos gratuitos todas as noites, na igreja e na praça.
Se a noite começa com concertos na igreja, termina em forró e ao som dos rabequeiros na praça. Entre as atrações estão o Trio Sonare de Música Antiga, de Brasília, e a soprano Marília Vargas, figura constante em festivais de música antiga e também com promissora carreira no circuito operístico europeu, além de nomes como Hermeto Pascoal e Sebastião Tapajós.
– Para nós, músicos, é uma verdadeira imersão e um grande intercâmbio, não só com a população, mas com os outros artistas – acredita Kristina.
Iniciativa da ONG Instituto Atos, além de concertos, a mostra promove oficinas com os convidados. Também farão apresentações os jovens da Orquestra Filarmônica da Chapada do Araripe, formada há um ano por jovens estudantes de música da região do Cariri. O estímulo veio das aulas ministradas no festival passado. Neste ano, a ênfase das oficinas será o canto, com cursos ministrados por Marília Vargas, Silvana Scaranci e por integrantes do grupo Cantus Firmus, de Florianópolis.
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