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Jorge Luiz Calife Especial para o JB Arthur C. Clarke foi o último dos grandes pensadores que sonharam o futuro no século passado, uma época bem mais futurista do que a de hoje. Gente como ele e Carl Sagan apresentaram uma opção para o futuro da humanidade. Acho que Clarke foi uma das primeiras pessoas do universo a pensar numa saída para a humanidade. Hoje não temos mais pessoas como ele, foi uma grande perda. Mas seus sonhos estão se realizando. Se hoje há uma equipe de cientistas que projeta uma estação espacial internacional montando um robô para fazer as atividades fora da estação, isso foi uma coisa sonhada por ele. Clarke foi mais feliz do que Julio Verne, porque viu alguns de seus sonhos realizados. Verne imaginou a viagem à Lua e não estava vivo para presenciar isso. Já Clarke foi o pai dos satélites e pôde ver isso de perto. Fiz contato com Arthur C. Clarke em 1977, quando uma revista chamada Omni publicou uma grande entrevista com ele, em que afirmava que iria parar de escrever. Clarke acabara de lançar o romance As fontes do paraíso e afirmou que seria seu último livro. Seus projetos eram se dedicar apenas ao mergulho e ao piano. Resolvi mandar uma carta para ele, pedindo que não parasse de escrever, que reconsiderasse sua decisão - Arthur Clarke era meu escritor favorito, não queria que parasse, de jeito nenhum. Eu tinha escrito em 1975 um conto pequeno, de umas quatro páginas, que era uma continuação de 2001: uma odisséia no espaço, maior sucesso literário dele, intitulado 2002, e falei sobre o meu conto na carta, expliquei mais ou menos como era o texto. No fim, disse que, se eu tinha feito uma continuação do livro dele, poderia fazer coisa muito melhor. Eu não tinha o endereço dele, só sabia que morava em Cinamon Gardens, um bairro da capital do Sri Lanka. Deduzi que deveria ser a pessoa mais conhecida de lá, e que seria o mesmo que alguém mandar uma carta para Jorge Amado sabendo apenas o nome do bairro dele - a carta acabaria chegando. Mas mandei de brincadeira, nem esperava que ele fosse ler, quanto mais que fosse responder. Para minha surpresa, alguns meses depois chegou uma carta do Arthur Clarke. Era quase um bilhete, no qual ele agradecia minha carta, reafirmava que não tinha mesmo a intenção de voltar a escrever e dizia que adorara o resumo do meu conto que mandara para ele. Disse até que se sentia tentado a mostrar as minhas idéias para Stanley Kubrick, que tinha dirigido o filme de 2001. Imagina só! Falei para ele que poderia usar as idéias da maneira que quisesse, que eu não fazia objeção nenhuma. Passou um tempo e, em 1979, recebi uma carta do editor dele, em que afirmava que Clarke voltaria a escrever e que usaria as idéias que eu havia cedido a ele em seu novo livro, que seria uma continuação de 2001 chamada 2010: uma odisséia no espaço II. Acho que ele mandou o editor escrever para ver se eu não tinha me arrependido de ceder as idéias. Mas o fato é que fiquei muito feliz e mantive contato com ele, por cartas, durante toda a produção do livro. Antes de sair aqui, li um resumo na Playboy, e depois, quando foi publicado no Brasil, tive a surpresa de ver uma dedicatória a mim. Tinha lá escrito: "Ao sr. Jorge Luiz Calife, do Rio de Janeiro, por uma carta que me fez pensar seriamente numa possível continuação (eu que há muito tempo dizia que essa continuação era impossível)". Depois publiquei o conto na revista Manchete, em 1983, e comecei a ser muito procurado por jornalistas para dar entrevistas - na época eu estava até terminando a faculdade de comunicação e a Editora Nova Fronteira, que lançava os livros de Arthur Clarke no Brasil, me procurou para ler meus textos. Assinei contrato e lancei, por essa editora, os dois primeiros volumes de uma trilogia de ficção científica, Padrões de contato (1985) e Horizonte de eventos (1986). A trilogia se encerrou com Linha terminal, da Editora GRD (1991). Os três livros serão relançados agora pela editora Devir. Acho que o que mais ficou do Clarke na minha obra foi a idéia das residências aéreas - ele enxerga que no futuro as casas serão móveis, não estarão submetidas à lei da gravidade. Lembro de ele ter lido isso num livro seu chamado Perfil do futuro (1970), que no Brasil foi lançado pela Editora Vozes. Aproveitei esse conceito nos meus livros, assim como muita coisa da minha correspondência com ele. Nós nos escrevíamos esporadicamente e até avisei a ele que havia um erro em 2010, quando o li. Na Discovery, os personagens achavam dois trajes espaciais na garagem de cápsulas. Na verdade, havia três roupas espaciais. Isso foi colocado de modo errado na seqüência. Arthur pediu ao diretor que ia filmar 2010, Peter Hyams, que corrigisse isso no filme. Graças a isso, fui até citado no livro The Odyssey file (1984), que traz a correspondência de Arthur e de Peter durante a elaboração do filme. No começo a gente enviava cartas um para o outro - não havia internet nos anos 80, claro. Depois passei a ser detentor de um segredo muito bem guardado, que era o e-mail do Arthur Clarke. A última vez em que me correspondi com ele foi em 1998, porque estava jogando o jogo de computador Rama, baseado no romance Rama 2, de Arthur e Gentry Lee. Lembro que não conseguia terminar a última fase do jogo, porque tinha que desarmar umas bombas deduzindo um código à base de números primos. Era um jogo dificílimo, que acabou nem fazendo muito sucesso, porque o jogador precisava saber bases numéricas. Eu tive até que ir pesquisar meus antigos livros de matemática - porque eu tinha feito engenharia quando mais novo. Mandei um e-mail para ele dizendo que havia chegado à última fase e ele respondeu dizendo: "Parabéns! Nem eu consegui chegar". Mas depois disso nunca mais nos falamos. Fui também colecionando muita coisa relativa ao Clarke e à ficção científica de modo geral. Tenho até o roteiro original de 2001, que baixei da internet. Por ali dá para ver que o filme ficou incompleto, porque ele e o Kubrick não conseguiram fazer nem metade do que imaginaram, por causa da tecnologia da época.
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