16 de março de 2008
 
A morte das revistas de música

Braulio Lorentz

O leitor que passa os olhos pelas revistas penduradas nas bancas de jornal não tem chance de encontrar uma publicação que seja dedicada à música, sem segmentações de estilo. Só no ano passado, três revistas sobre bandas, discos e shows pararam de circular: Bizz e Revista da MTV, da Editora Abril, e Outracoisa, da L&C Editora. Em meio a um punhado de títulos especializados em gêneros (heavy metal, eletrônica) ou voltados para instrumentistas, sobrevive a versão brasileira da Rolling Stone - que tem na música seu assunto principal, mas que também fala de política, TV, cinema e comportamento.

- O mercado de música infelizmente nunca teve um grande número de leitores - sentencia Ronny Hein, diretor da Editora Peixes, com títulos sobre cinema, TV, culinária e surf, entre outros. - Revistas do gênero sempre sobreviveram por meio de assinantes e anúncios de gravadoras. Os mercados editorial e fonográfico estão aturdidos, em busca de novos caminhos.

Para José Wilson Fonseca, diretor geral da MTV, há um contexto desfavorável para as publicações musicais.

- Não acho que seja coincidência o fim dessas três revistas - afirma Fonseca, que ainda lamenta o fim da publicação de sua emissora, em dezembro, que era distribuída só para seus 17 mil assinantes. - Talvez o tema música não tenha força para manter uma publicação mensal.

A notícia está na internet

Fonseca decidiu acabar com a versão do canal no papel, mesmo tendo tantos assinantes. Ele conta que preferiu concentrar esforços em fazer mais programas ao vivo e na entrada da TV digital no Brasil, que exige grandes investimentos e encarece muito a produção.

- Notícias de música estão disponíveis nos sites. O bolso do jovem continua do mesmo tamanho do de antes da internet. Agora ele prioriza outras coisas, como celulares e videogames - exemplifica o diretor da MTV.

Em sua última fase, a Bizz tirava entre oito e 10 mil exemplares ao mês. Dentre as publicações do ramo, era a de maior tradição. A primeira edição foi para as bancas em 1985.

- A Bizz vendia 80 mil quando a Capricho vendia três milhões. Agora, a Capricho vende 50 mil, e nós, 10 mil. A proporção melhorou - consola-se Ricardo Alexandre, que já editou duas publicações que naufragaram: a independente Frente, que vendeu 1.500 exemplares de cada uma das três edições lançadas em 2002, e a Bizz.

Alexandre diz que a Frente era evidentemente um fiasco do ponto de vista comercial.

- Revista de música não tem público. Se quiser fazer, você vai ter de moldar a sua vida, sua alma, sua estrutura e seu trabalho para tocar uma revista pequena. Se for para trabalhar por amor a alguma causa, prefiro escrever sobre religião.

Diretora do núcleo jovem da editora Abril, Brenda Fucuta concorda com Alexandre.

- Nosso objetivo era aprofundar os temas musicais para o público de 30 a 40 anos. Não alcançamos uma circulação sustentável. O mercado editorial impresso de música é de nicho. As revistas de grande circulação passam por estilo de vida e celebridades. A música se pulverizou por muitas mídias - analisa Brenda.

Entre as revistas lançadas nesta década, uma das que tiveram mais fôlego foi a Zero. Foram 15 edições, com tiragem (declarada) de 50 mil exemplares entre 2002 e 2004.

- A revista acabou porque não era mais viável comercialmente para nós - conta Luiz César Pimentel, que era diretor de redação da Zero. - Tínhamos um acordo com a Editora Escala em que eles davam uma taxa mensal para produção da revista. Imprimiam, distribuíam e ficavam com o dinheiro de banca. A receita de publicidade era dividida igualmente. Quando mudaram o diretor comercial da editora, disseram que dali em diante seria 80% para eles e 20% para nós.

Com cinco edições em 2005 e tiragem média de 25 mil exemplares, a Mosh, da editora HMP, acabou por falta de anunciantes.

- O espaço para revistas de música no Brasil é mínimo. A parcela de leitores que se interessa por música de boa qualidade é muito menor do que imaginavámos - garante Regis Tadeu, que editava a Mosh.

Para os padrões atuais, a grande maratonista das bancas foi a Outracoisa, que durou 22 edições nas prateleiras e saiu do mercado após o fim do contrato de patrocínio com a Petrobras. O último número foi lançado em novembro; a revista sempre trazia um CD encartado, e a tiragem era de oito mil a 25 mil.

- Não tínhamos um departamento comercial capaz de fazer surgir um patrocínio - explica Adilson Pereira, editor do título, que levava a alcunha de "revista do Lobão" por causa da participação do músico no conselho editorial. - As publicações têm que ser comercialmente viáveis, mas é preciso encarar a missão com romantismo.

"A 'RS' não é revista de música"

Pimentel também é da turma dos otimistas.

- O Brasil é um país para revistas: de música e do que quer que seja - garante o jornalista. - Tantos títulos de música acabaram pois há um monopólio no Brasil que une distribuidoras e editoras, que determinam o que vai para as bancas ou não. Eles buscam resultado imediato. Se lançassem uma publicação de música, de qualidade, a preço bastante acessível, daria pé.

Ademir Corrêa, editor da Rolling Stone nacional, não vê sua revista como uma publicação do tipo.

- Historica e erroneamente a Rolling Stone é considerada uma revista de música - diz.

Ele está munido de um gráfico de porcentagem dos temas da revista: 35% de música; 15% de mídia e indústria do entretenimento; 15% de política e comportamento; 10% de moda; 10% de cultura geral (cinema, TV, internet, games); e 10% de tecnologia.

- Não temos concorrência, por isso temos que nos basear em publicações internacionais - explica o editor da RS, que tem tiragem média de 100 mil. - Seria difícil manter uma revista só de artes plásticas ou de um segmento cultural. É o caso de uma revista de música.

[ 16/03/2008 ]   02:01