16 de março de 2008
 
Entrevista: Ricardo Amorim - De convidado a participante fixo

Carlos Braga

Quando, 15 anos atrás, Paulo Francis ensaiava seus primeiros esbregues em Caio Blinder no Manhattan connection, programa transmitido pelo canal pago GNT, Ricardo Amorim embarcava para Paris. O jovem economista preparava-se para cursar uma pós-graduação na École Supérieure des Sciences Economiques et Commerciales e assistiu a poucas edições dos debates comandados pelo jornalista Lucas Mendes. Águas rolaram, desde então. Francis morreu em 1997, o programa entrou em crise, recuperou-se, o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor ficou por lá um tempo. Em 2003 entrou o escritor Diogo Mainardi e Amorim, que vinha de duas bem-sucedidas participações no programa, foi convidado a se tornar efetivo. Falou sobre a economia brasileira na época em que os mercados andavam arrepiados com a perspectiva de ver Lula presidente do Brasil. Nesta entrevista, feita por telefone, Amorim, 37 anos, fala sobre sua experiência no programa (a edição comemorativa de 15 anos vai ao ar hoje, às 23h), suas andanças pelo mundo e, claro, do Brasil.

Como você foi parar no 'Manhattan connection'?

- Fui parar no Manhattan há cinco anos e meio. Entrei em outubro de 2002, quando me levaram como entrevistado para falar sobre as eleições daquele ano. O mercado estava muito nervoso, e a minha formação é de economista. Acharam que me saí muito bem, e me entrosei bem com eles. Fui convidado para falar no segundo turno e no último programa do ano para fazer um balanço e uma perspectiva do ano seguinte. E acabaram me convidado para participar do programa. Costumo brincar com o Diogo que devemos nossa participação ao Lula. Também pesou o fato de em Nova York todo mundo achar que o Brasil ia afundar. E eu era um dos únicos otimistas que achavam que o país ia melhorar.

Sentiu-se intimidado no início?

- Não. Já fazia muito isso. Minha primeira vez no Manhattan foi num programa ao vivo. Para minha surpresa, o Caio e o Lucas estavam muitos mais nervosos do que eu. Muito tempo depois é que entendi o motivo. É que eles são gravados. Como o Lucas apresenta o programa, se der um problema técnico qualquer, quem vai ficar com cara de empada vai ser ele. Até tentei acalmá-lo.

O 'Manhattan' sempre teve participantes com personalidades bem definidas. Como você se encaixa na bancada?

- Continuo trabalhando em mercado financeiro, e falo mais sobre economia e dinheiro. Quando entrei, o Jabor ainda estava lá. Eu era considerado o grande cara de direita no programa. Com a entrada do Diogo, que claramente está bem à direita de mim, virei esquerda. Do ponto de vista político, não me vejo como um cara de esquerda ou de direita. Acho que o charme do programa é falar de assuntos sérios de forma descontraída. Os papéis dos participantes têm a ver com isso. Com o passar do tempo, se fixam junto ao espectador determinadas personas. E o público fica com essa expectativa, faz parte do charme.

Por que você foi morar em Nova York?

- Nasci em São Paulo, morei a maior parte da minha vida lá. Fui para a França em 1993, voltei para São Paulo e, no começo de 2001, me mudei para Nova York, quando completava 30 anos. Tinha tantas questões para resolver que nem pensei que estava fazendo 30 anos. Não tive crise. Fui para trabalhar num banco. Demorei bastante a topar. Morar fora é muito difícil, sinto saudade das pessoas, do jeito do brasileiro, do clima. Mas acabei topando. Queria conhecer o coração da finança mundial. Por outro lado, achava que Nova York podia ser uma cidade interessante culturalmente. O que tem lá e que eu não vi em nenhum lugar no mundo é a capacidade de acolher estrangeiros. Na França me senti um estrangeiro. Mas há dois lados negativos. Um é a agressividade dos nova-iorquinos. Nunca vi nesse nível. Fala-se muito do parisiense, que é muito mal-humorado. Mas o nova-iorquino é extremamente agressivo. O problema é que você vai adquirindo um pouco dessa agressividade. As pessoas não estão nem aí para os outros. O que também traz uma grande liberdade. Uma vez, na Grand Central Station, uma senhora teve o saco rasgado e tudo se espalhou no chão. Ninguém deu a menor bola. Comecei a ajudá-la e ela me agradeceu de uma forma tão desproporcional que parecia que eu tinha feito uma coisa do outro mundo. Quando ia à Bahia, achava os paulistanos duros. Hoje vejo como o paulistano é simpático.

Esses anos em Nova York modificaram a sua visão do Brasil?

- Estou aqui há sete anos e vou muito ao Brasil a trabalho. O clima tem uma coisa engraçada. Em Paris fiquei incomodado pelo clima, mas em Nova York, não. O inverno de lá tem dias lindos, um céu azul maravilhoso. Em Paris tem um cinza que em algumas semanas deixa a gente meio deprimido. O comodismo do brasileiro é uma coisa que me incomoda. Adora reclamar, mas faz pouco para mudar a situação. O americano se mobiliza. O lado positivo é que o brasileiro consegue estar de bem com a vida com muito pouco. O americano pode ter tudo e estar de mal com a vida. O Brasil mudou muito mais ao longo desses anos, até mais do que os brasileiros percebem. A visão internacional sobre o Brasil é mais positiva do que a que tem o brasileiro. Converso com investidores estrangeiros e eles acham que estamos num processo parecido com países como a Coréia do Sul. E esse processo é, muito provavelmente, irreversível. A questão é se a gente está aproveitando uma oportunidade única, de um período favorável, para pular para o nível da Coréia, da Itália. Para isso, temos que reduzir o tamanho do Estado, investir em infra-estrutura e em educação.

Sobre o que falaram no programa que comemora os 15 anos do 'Manhattan connection'?

- Foi divertidíssimo. Gravamos com platéia no Colégio Santa Cruz, em São Paulo. Falamos de quem passou pelo programa, tanto os apresentadores quanto os vários convidados, e até como o mundo mudou nesse período. Fizemos um pouco de futurologia, cada um contou sua experiência em Nova York. A história do Caio foi muito divertida. O Lucas e o Diogo falam do mesmo restaurante, que era adorado pelo Francis, o Bravo Gianni.

Você assistia ao 'Manhattan' antes de entrar no programa?

- Eu vi algumas vezes, o programa nasceu poucos meses antes de eu me mudar para a França. Quando voltei, cheguei a ver alguns. É inegável que o Francis teve um papel fundamental. Não sei se o programa teria emplacado sem ele. Mas ele ficou apenas quatro anos. As pessoas tendem a supervalorizar a história do Francis no programa.

Como é a sua vida fora do estúdio?

- Primeira coisa, o meu trabalho no banco alemão (WestLB, um dos maiores do país), como diretor executivo para mercados emergentes. Cuido de investimentos do banco nesses mercados. Isso leva a maior parte do meu dia. Adoro cinema, gosto muito de ler, apesar de ter lido muito menos do que gostaria. Também gosto muito de viajar. Estou no Atacama (Chile). Já vim várias vezes ao Chile. Adoro o sul do país, adoro Santiago. Como vou para as grandes cidades a trabalho, prefiro lugares menores para turismo. Estou aqui com a minha namorada. Um dos lugares que mais me surpreenderam foi Fernando de Noronha. Já estive em cerca de 70 países. Em termos de natureza, é um dos lugares mais bonitos. A Turquia é muito bonita e interessante culturalmente. Fui fazer um acampamento na base do Everest e voltei apaixonado pelo povo sherpas (grupo étnico que vive nas altas montanhas da região oriental do Himalaia). Nunca vi um povo tão pobre e tão de bem com a vida. Foi uma lição. O Nepal e a Índia mudaram a minha impressão sobre pobreza. No Brasil, comparado com esses países, praticamente não existe miséria.

Já aconteceu alguma saia justa com você durante o programa?

- No meu caso, houve uma declaração sobre resultados de determinados grupos étnicos. Fiz um comentário sobre o resultado alcançado por grupos asiáticos e o Diogo me classificou de racista. Uma das coisas que aprendi é como a gente ouve o que quer ouvir. Percebo isso pelos e-mails que a gente recebe. Em alguns casos recebo elogios ou críticas pesadas. Perguntam: "Como você pode achar isso?" Só que não acho nada daquilo. Por exemplo: seria algo mais ou menos como se me posicionasse contra as cotas na universidade por critério racial. Certamente viria alguém me acusando de ser contra as cotas. Não sou contra, só não concordo com o critério racial.

Você demorou a aceitar o convite...

- Demorei a aceitar. No Manhattan fala-se de tudo. E, claro, toca-se em assuntos que não domino. Na minha área eu ralo muito para conhecê-la profundamente. O que me atraiu no programa é a chance de expressar opiniões sobre coisas que acho importantes para o Brasil. E numa bancada extremamente sofisticada, com um espectador sofisticado, é o público dos sonhos. Apesar de adorar cinema, não vou discutir esse assunto com a Lúcia Guimarães. Vou passar uma imagem de que estou chutando.

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