08 de fevereiro de 2008
 
A companhia de um homem só

Não se engane com os 12 artistas em cena ou com os 25 integrantes da equipe técnica. O espetáculo Hotel Medea - 3 performances da meia-noite ao amanhecer pode ser grandioso, mas a Companhia Teatral Zecora Ura Theatre é formada por um homem só: o carioca Jorge Lopes Ramos, de 26 anos. Morador de Londres desde 1999, formou o grupo há oito anos, mesclando atores, poetas, escultores, músicos e técnicos de diferentes partes do planeta. Seu modus operandi, no entanto, é fazer associações e encontrar novos parceiros a cada nova produção. Hoje e amanhã, o diretor apresenta, em Miguel Pereira, a duas horas do Rio, o processo de Hotel Medea, no Centro Popular de Conspiração Gargarullo, com uma equipe londrina e outra brasileira.

- Estou sempre me associando a grupos, indivíduos ou instituições. Por isso a Zecora é reformulada de acordo com o projeto - explica Ramos. - Neste trabalho, foi feita uma parceria com a Cia. Para-Active numa pesquisa de identidade cultural por meio do corpo.

Capoeira e butô

O nome da companhia foi escolhido de acordo com as técnicas que Ramos gosta de usar em seu método de criação. Zecora, na linguagem africana, deu origem a zebra. E da dança da zebra, ou n'golo, nasceu a capoeira. Ura significa água corrente em japonês.

- O treinamento dos atores sempre foi focado na capoeira e no butô japonês - explica o diretor, formado pelo Rose Bruford College, em Londres, onde fez residência artística por três anos. - Depois, fui incorporando outras técnicas, dependendo do grupo com o qual estou trabalhando. Mas a base é essa.

O objeto de estudo de Jorge Lopes Ramos é o ator. Em sua busca existencial e do que significa a arte de atuar. Também se propõe a descobrir qual é, de fato, seu público:

- Sempre proponho tarefas à platéia. O espectador nunca fica apenas no papel de observador.

Na releitura de A tempestade, de Shakespeare, em 2005, havia uma quebra de linguagem a partir do texto, que misturava cinco idiomas: português, francês, italiano, inglês de rua e inglês elisabetano. Em Don't feed the lions ("Não alimente os leões"), de 2006, o diretor deixou dois atores presos por sete dias e sete noites no Oval House Theatre, onde também foi residente, sem se alimentar.

- Eles apenas se alimentavam quando o público levava comida - lembra o criador. - Se ninguém levasse nada, passavam fome. Era um espetáculo que falava sobre energia alternativa. A gente tinha umas bicicletas ligadas a geradores e a platéia pedalava para produzir e armazenar energia.

Com estréia marcada para agosto, no Festival de Teatro de Edimburgo, na Escócia, Hotel Medea é formado por três partes - Mercado da zero hora, Dryland e Banquete do amanhecer - e vai durar da meia-noite ao nascer do sol. Mas ainda não em Miguel Pereira, onde serão exibidos apenas os processos da primeira e da terceira partes. A montagem é uma adaptação livre da tragédia de Eurípedes, em que a personagem-título mata os próprios filhos para se vingar da traição do marido, Jasão.

- A proposta também é discutir sobre a viciada máquina de entretenimento londrina - detalha. - Há códigos que são obedecidos que queremos deixar de lado, para tirar o espectador de sua zona de conforto. A começar pelo horário do espetáculo, que durará umas cinco ou seis horas. Apenas o fato de ir assistir à montagem já é tomar uma decisão artística.

A Zecora nunca apresentou um espetáculo pronto no Brasil, apenas processos. O début pode acontecer ainda este ano. A equipe do festival riocenacontemporânea vai assistir ao trabalho em Miguel Pereira, para conhecer a companhia e fazer um possível convite. Negociações com o centro cultural Oi Futuro, no Flamengo, também estão sendo feitas para uma temporada no segundo semestre.

Com apoio do Festival Internacional de Salisbury (Inglaterra), do Teatro Aurora Nova (Escócia) e do CPC Gargarullo (Rio de Janeiro), a Zecora está há um mês instalada em Miguel Pereira, depois de uma longa gestação artísica que incluiu viagens pelo país. Passaram por Maranhão, Pernambuco e Campinas (São Paulo), onde têm uma parceria de quatro anos com o renomado Grupo Lume.

- Estamos neste trabalho desde dezembro de 2006. Na equipe, há gente do Brasil, do Reino Unido, da Nigéria e do Iêmen. O Jasão é Uris Oliveira, do Grupo Tapete (Maranhão) e a Medéia é a atriz Persis-Jade Maravala, vinda do Iêmen, que faz parte da companhia Para-Active. O DJ Dolores vai assinar a trilha sonora. Como a equipe é grande, ainda estamos buscando apoio financeiro para levar oito dos artistas ao Reino Unido.

[ 08/02/2008 ]   02:01