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Renata Ramos Ao entrar pela sala do apartamento de Marilia Kranz, na Fonte da Saudade, Zona Sul do Rio, é possível supor que ali vive uma artista plástica. Do lado esquerdo você se depara com uma grande tela colorida com formas arredondadas, posicionada no centro do quarto que serve de ateliê. Na sala de jantar, esculturas embaladas, prontas para seguirem ao Museu de Arte Moderna (MAM) rumo à exposição que comemora seus 70 anos de idade e 40 de carreira. A inauguração da mostra acontece no dia 5 de dezembro e será acompanhada do lançamento do livro Marilia Kranz (Andrea Jackobsson Estúdio Editorial) sobre a vida e a obra da artista plástica que participou de incontáveis coletivas e individuais, dentro e fora do Brasil. - Vasculhei as minhas gavetas e baús para conseguir produzir o livro. E foi emocionante reviver tantas fases da minha trajetória como artista e como mulher - conta Marilia, que convidou o amigo e crítico de arte Frederico Morais para escrever a sua história em 204 páginas. Entre elas, relatos da vida social, familiar e profissional, além de fotos de grande parte de sua produção artística, entre desenhos, esculturas e quadros. O livro era um sonho antigo de Marilia, mas que ainda não havia sido realizado por falta de patrocínio. No início do ano, ela recebeu a notícia com a resposta positiva da Petrobras, que aceitou o projeto. Já a exposição estava marcada desde o ano passado. A mostra apresenta 18 obras, realizadas entre 1968 e 1974, que fazem parte de uma das fases mais importantes da trajetória da artista, evidenciando o seu pioneirismo. Na série, Marilia usou materiais pouco explorados à época e produziu peças com resinas industriais como o epoxy, poliéster, poliuterano e fibra de vidro. Como conta, muitos acharam a novidade estranha, o que não desanimou a artista, que prosseguiu alguns anos trabalhando no projeto. - Resolvi experimentar novos materiais e passei quatro anos dentro de uma fábrica. Quando fiz a exposição de 1974 e coloquei os trabalhos no espaço destinado a eles, senti vontade de voltar a trabalhar com pincéis, e foi o que fiz - explica. A ligação de Marilia com a arte começou ainda na adolescência. Aos 13 anos, foi levada pela mãe para o ateliê de um amigo da família e nunca mais saiu de perto de tintas, pincéis, ou outro material que resolvesse usar para produzir obras de arte. - Naquela época não tinha nada para as crianças fazerem fora do horário escolar. Minha mãe trabalhava muito e resolveu me colocar para aprender pintura - lembra. - O professor mandou que copiasse uma de suas telas. Peguei o pincel e fiz exatamente o que foi pedido. Ele ficou encantado com o resultado. Depois desse pontapé inicial, Marilia escolheu cursar a Escola Nacional de Belas Artes. Também atuou como ativista política e foi figura presente em eventos sociais. Como convivia com outros artistas, serviu de musa para poetas e cartunistas, como Geraldo Carneiro e Chico Caruso, por exemplo. - Nunca tive dúvidas do que seria no futuro. Desde muito nova estava certa de que minha vida seria ligada às artes plásticas. O lado político é muito presente também. Sou uma das fundadoras do Partido Verde e sempre estive preocupada com o meio ambiente. Mas, apesar de retratar a natureza em meus quadros, não misturo uma atividade com a outra. Eu pinto o que sinto no momento e nada mais. Para começar o livro, Morais escolheu dizer que "Marilia Kranz são duas". A afirmação, diz a artista, foi feita porque é uma pessoa que faz tudo ao mesmo tempo. E é verdade. Enquanto atende à porta, fala ao telefone e manda as visitas sentarem. Aos 25 anos, já tinha três filhas e, como afirma, era preciso fazer todas as atividades juntas para que pudesse conciliar a maternidade e o trabalho. - Trabalhava todos os dias, sem pausa. Como era preciso cuidar da casa, das crianças e não deixar a minha produção parada, produzi todos os dias da minha vida - explica Marilia, que agora está há algum tempo longe do ateliê. - O livro me consumiu 11 meses. Não corto meu cabelo há quatro! Ainda bem que tenho energia, apesar da idade - diz a artista ainda sem planos para o próximo ano. - Vivi tantas coisas nesses meses que preciso descansar um pouco. Mas sigo produzindo como sempre fiz, claro.
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