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Tárik de Souza O branquelo descendente de portugueses Germano Mathias, nascido no bairro do Pari, em 1934, biografado no DVD Ginga no asfalto (Lua Discos), é a prova viva e irrequieta de que paulista também é bom de samba e de chinfra. Entrevistado pelo pianista e diretor musical do vídeo Guilherme Vergueiro, desfia as peripécias de ás do sincopado, que encontrou na latinha niquelada (inspirada no batuque dos engraxates) um diferencial, em meio a sambistas que percutiam no chapéu de palha ou na caixa de fósforos. Do ídolo, Caco Velho, gaúcho que cantava dissonante, copiou a incrível cuíca de boca com que abre o show a bordo de Ironia da pastora, do alagoano Jorge Costa. Mais adiante, o também passista de estirpe, do alto de seus 73 anos, sola um trombone de boca afinadíssimo. Nada muito além do lúdico, caso não duetasse com o solista da banda, o trombonista Raul de Souza, um dos maiores do planeta. Entremeando histórias hilárias e sambas recortados como Guarde a sandália dela (do solista com Sereno), Falso rebolado (Venâncio/ Jorge Costa), Nega Dina (Zé Keti), A situação do escurinho (Aldacir Louro/ Padeirinho da Mangueira), GM revisita a casa onde nasceu e pede licença ao novo proprietário para filmá-la. Trechos de dois filmes de que participou no final dos 50, O preço da vitória, de Oswaldo Sampaio e Quem roubou meu samba, de José Carlos Burle, onde contracena com Ankito, o exibem como cantor, passista e até hábil na pernada. Numa seqüência de fotos, o encapetado artista sobe na mesa onde a cantora Maysa está ao telefone e posa ao lado do campeão Éder Jofre, lembrando sua fase de boxeador. Morou no Rio, no Posto 6, em Copacabana, no final dos 60, e conheceu o patriarca do rock nativo Carlos Imperial, que o presenteou com um samba misógino e engraçado, Minha nega minha máquina, que ele canta às gargalhadas. Prefere, no entanto, silenciar sobre o primeiro sucesso, Minha nega na janela ("diz que tá tirando linha/ êta nega, tu é feia, que parece macaquinha"), de 1956, parceria com Doca. "Na época não teve problema. Mas hoje a letra é considerada racista", anota. Fecha o documentário cantando A palhaçada (Habib/José Henrique/ Heitor Carillo) a bordo de um fusca parado, de cinto de segurança e tudo. "A palhaçada acabou, chegou ao fim/ reze pra Deus te mandar outro otário igual a mim".
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