20 de setembro de 2007
 
Muito barulho por nada

Exibição de 'Tropa de elite' para a crítica comprova que filme é o mesmo da versão pirata, e diretor, que alardeou diferenças, diz agora que a obra "é para o cinema"

Carlos Helí de Almeida

Aos que compraram o DVD pirata de Tropa de elite, um aviso: não é preciso revê-lo no cinema. Não há diferença significativa entre a versão alternativa, que circula livremente pelas esquinas da cidade desde o início de agosto, e a definitiva, a oficial, que abre hoje à noite, em sessão para convidados, a edição 2007 do Festival do Rio, que traz 420 longas. Afora a reconfiguração de alguns planos, a inclusão de pequenos trechos na narração em off e a retirada dos intertítulos, que dividiam a narrativa em tópicos, o filme, exibido ontem para a crítica especializada, é o mesmo, com o mesmo poder de fogo. Os "contraventores" que não conseguiram segurar a curiosidade até o lançamento em circuito do polêmico filme de José Padilha, marcado para o dia 2 de outubro, no entanto, só perceberão a distância na qualidade técnica.

- O roteiro que gerou o filme não mudou, o material já estava filmado - confirma José Padilha, depois de ter dito que a versão pirata era bem distinta da oficial. - Mas as alterações que fizemos, por menores que sejam, o transformaram num filme diferente. Só a eliminação dos intertítulos, por exemplo, lhe conferiu um ritmo diferente. Vamos colocar essa mudança em números: entre a versão do DVD pirata, que era uma cópia de trabalho, e a definitiva gastamos mais R$ 800 mil. O que importa é como o espectador entende o que seja cinema. Os envolvidos no projeto geraram um produto que é para ser visto no cinema, com o som, a imagem e a narrativa apropriados. Várias pessoas que já viram o DVD pirata de Tropa de elite me disseram que ver no cinema é outra experiência.

O novo projeto de Padilha carrega polêmica nas entranhas. O filme pretende fazer uma radiografia da violência urbana carioca, cujas raízes estão encravadas em quatro grupos de personagens: agentes do Bope, policiais de um batalhão da PM, universitários e membros de organizações não-governamentais (Ongs). O roteiro, de Padilha e Bráulio Mantovani (de Cidade de Deus) contou com a rica contribuição de Rodrigo Pimentel, capitão reformado do Bope que caiu em desgraça depois de um depoimento ao documentário Notícias de uma guerra particular (1999), de João Moreira Salles. A corrupção policial generalizada e a contribuição indireta das classes média e alta no financiamento do tráfico estão na mira do filme. "Quantas crianças a gente tem que perder para o tráfico só para que um playboy possa enrolar um baseado?", pergunta Nascimento, o capitão do Bope interpretado por Wagner Moura, o narrador do filme.

Autor do premiado Ônibus 174 (2002), que reconstitui o trágico desfecho do cerco a Sandro do Nascimento, seqüestrador de um coletivo na Zona Sul do Rio em 2000, diz que Tropa de elite não pretende apontar bandidos e mocinhos.

- Minha intenção é que as pessoas percebam que cada um de nós faz suas opções dentro das regras sociais em que vivemos - diz Padilha, que finalizou o filme em Los Angeles, de onde voltou no último fim de semana, e construiu o filme a partir de uma extensa pesquisa com policiais, estudantes, pesquisadores sociais e oficiais do Bope. - Os policiais, a classe média e o Bope jogam segundo essas regras e as conseqüências dessas escolhas estão nas estatísticas sobre os homicídios ocorridos no Rio nos últimos 10 anos. Espero que o espectador veja o filme e diga: "Vamos mudar as regras, não é"? Tropa não oferece respostas, apenas aponta para uma conclusão genérica: ninguém ganha nesse jogo, só perde.

Como a história de Tropa de elite é contada do ponto de vista de um oficial do Bope, que vê a PM como um antro de corrupção, há quem entenda o filme como uma peça promocional do trabalho da força tarefa especial carioca. "Na polícia, quem trabalha direito sempre se ferra, de um jeito ou de outro", diz Nascimento. Integrantes do Bope, contudo, já tentaram, em vão, impedir a exibição do filme, que mostra seus representantes torturando civis e marginais.

- Já exibi o filme para americanos e eles ficam horrorizados com as ações do Bope, porque eles têm práticas que contrariam os direitos humanos - conta Padilha, que tem como parceiro o produtor Harvey Weinstein - lançou Quentin Tarantino nos anos 90.

Nenhum dos personagens de Tropa de elite fala na legalização das drogas como uma alternativa à violência. Mas há uma razão para isso:

- Nenhum dos grupos sociais que eu pesquisei falou em legalização. Ouvi políticos sérios que me disseram: "A gente precisa da legalização, sim, mas, se eu falar sobre isso na minha campanha, eu não me elejo". A legalização das drogas não é uma bandeira popular. Na verdade, ninguém sabe como fazer isso, os processos sociais são muito complexos.

Leia amanhã na Programa as críticas de Tropa de elite

[ 20/09/2007 ]   02:01