25 de junho de 2007
 
Música e movimentação para marcar a ausência de palavras em cena

Macksen Luiz

Em O baile, do francês Jean-Claude Penchenat, não há palavras, apenas música e movimento. O dramático se infiltra por entre esses dois elementos, como um balé que conta a passagem do tempo e a história do país. Reunidos num salão de baile, os "personagens" se encontram ao longo dos anos - no roteiro brasileiro de Valderez Cardoso Gomes, em cena no Teatro Sesc Ginástico, de 1954 a 2000 - para dançar o momento em que vivem.

O que acontece fora do salão está refletido nas roupas, no comportamento, nas músicas, nas convulsões socias e políticas, como um painel que se desdobra em imagens e que a sonoridade conduz e modifica. Não sendo apenas coreografia, mas usando esse recurso como fio narrativo para fazer-se teatro, O baile transfere à música o papel de coadjuvar o dramático, respaldando-se na ausência de palavras para reverberar o ruído exterior.

José Possi Neto também foi hábil ao encenar o roteiro brasileiro com movimentação intensa, talvez como reflexo de um certa exuberância local, sublinhando com exaltação as "fontes murmurantes" nacionais. Não é por acaso que o diretor inicia a montagem com Aquarela do Brasil e encerra com o Hino Nacional. Nada mais apropriado para apoiar os pares que se distribuem pelo salão, percorrendo fatos e modismos, delimitando o espaço histórico e a geografia sentimental.

Possi Neto, de certo modo, abandona a "individualização" dos tipos, bem mais marcantes no original francês, buscando traços carregados de estereotipia e reiteração dos acontecimentos sociais como fundamentos do espetáculo. Ao mesmo tempo que o diretor rege os passos dos atores por entre músicas das épocas e no embalo das coreografias dos ritmos, reforça dramatização impostada de maneira mais enfática no período ditatorial. Desta forma, o cenário de Hélio Eichbauer, especialmente adequado às necessidades da montagem, se torna um decór de bela estampa.

O figurino de Marília Carneiro obedece às variações das modas com a mesma exuberância com que a direção amplia a sua abordagem cênica, que o coreógrafo Carlinhos de Jesus exagera, deliberadamente, em seu desenho dos movimentos, e que Aurélio de Simoni joga uma luz que tão bem enquadra as cenas.

A segura direção musical de Liliane Secco e a caracterização visual de Vavá Torres completam a eficiência da montagem, que reavivará, sem dúvida, as lembranças dos nostálgicos. O elenco de 20 atores, que executa com harmoniosa integração a dança do tempo, forma conjunto com destaques em vários quadros. Adriana Nogueira, Alice Borges, Anna Cláudiah Vidal, Antonio Negreiros, Beth Lamas (numa sensível intepretação de Meu mundo caiu), Carlinhos de Jesus, Charles Fernandes, Cláudia Mauro, Claudio Lins, Cláudio Tovar (em caracterização divertida), Édi Botelho, Édio Nunes, José Paulo Correa, Luciano Quirino, Marcos Ácher (um evocativo Amigo da Onça), Maria Salvadora, Najla Raja, Patrícia Carvalho-Oliveira, Sandra Pêra e Tássia Camargo conferem a O baile um indisfarçável molejo brasileiro.