24 de junho de 2007
 
Exige-se nova etiqueta

Marina Colasanti

Os grandes desfiles da temporada atravessaram as passarelas e se foram, a poeira dos astros baixou, e eu, sempre ligada em palavras, fiquei me perguntando que nome teria aquilo que substituiu a elegância.

Na grande festa que uma marca de roupas deu para sua manequim-estrela, os convidados, todos respeitabilíssimos, ou pelo menos todos vip, foram divididos em duas categorias: uma destinada ao "chiqueirinho megavip" no andar superior, com direito a ver a modelo, a outra confinada embaixo, no grande curral coletivo, sem direito sequer a um lampejo do seu cabelo louro.

Mas não eram todas pessoas de categoria? Ou uma grande marca dá festas para pessoas descategorizadas? E como é que pessoas de categoria se deixam dividir em primeira e segunda classe, sem reclamar? Pior, como é que pessoas de categoria almejam a inclusão na lista de uma festa em que, afinal, serão desprestigiadas? Ou não é desprestígio ser marcado, ao chegar, com uma pulseira que veda a entrada no espaço melhor?

Trocando a situação em termos domésticos, para os quais fomos mais claramente educados, seria a mesma coisa que convidar alguém para jantar em nossa casa, mas limitando seu acesso à cozinha, sem permissão de espiar pela fresta da porta a mesa da sala em que os convidados de maior respeito se banqueteiam.

Jantar na cozinha ainda seria ótimo, porque cozinha é lugar digno, laboratório de sagradas alquimias alimentares, e é na cozinha que se comem os melhores bocados. Grave é ser convidado para ficar no chiqueiro, mesmo se chamado chiqueirinho, mesmo se rotulado megavip. Por mais que se enfeite, chiqueiro sempre foi reduto de lama e porcos, onde se chafurda.

No Olimpo, os deuses se reuniam sob as arcadas de mármore polido por Vulcano, e Júpiter tomava assento entre eles. Todos podiam vê-lo e dirigir-lhe a palavra. Não havia primeira e segunda classes. Mas também não havia dúvida quanto à importância dos deuses.

À entrada dos modernos Olimpos, Cérberos de terno preto e ponto no ouvido fazem a triagem. E uma entidade nova e poderosa, a promoter, exerce o voto de Minerva, apontando com o dedo ou com o olhar os infelizes que serão barrados, e os eleitos que estarão com as divindades.

Entre as divindades, porém, como saber quais se encontram ali para espontaneamente louvar os donos da festa, e quais só comparecem como táxis? É por hora que o taxímetro de alguns convidados rola, com bandeiradas diferentes, dependendo do seu valor de mercado. De modo geral, o campeão do reality show de hoje vale mais que o de ontem, a brava atriz de teatro vale menos que a nova atriz de novela, a recém-promovida por escândalo vale mais, bem mais que a virtuosa. No preço podem estar incluídos os sorrisos para a imprensa.

Uma nova etiqueta torna-se necessária. Devemos cumprimentar mais efusivamente aqueles que foram à festa de graça, com desprendimento, ou os que, por terem cachê, são reconhecidamente mais valiosos? E quem é convidado, mas sem direito a passar no caixa, deve sentir-se ofendido e recusar o convite? Ou recusar o convite é caminho certo para nunca alcançar o posto de convidado pago? É de bom-tom atualizar a frase de Groucho Max: não freqüento festas que me pagam para entrar?

Em termos domésticos, o que é mais atual: alardear o preço astronômico pago ao convidado vip que abrilhanta nosso jantar, ou fingir que ele veio por ser amigo de infância?

É brega colecionar pulseirinhas como um general coleciona medalhas? Ou pode-se pelo menos guardar a primeira, aquela que a gente nunca esquece? Pulseirinha pirata deve ser vista como crime? Ou é uma forma de aderir ao clima geral da coisa?

Os mestres de etiqueta ainda não nos deram as respostas. É bom que se apressem, porque logo estaremos tatuando códigos de barra para passar nas catracas da alegria.