|
Rachel Almeida São Paulo. O fotógrafo parisiense Jean Larivière esteve no inóspito deserto no Iêmen, na Península Arábica, cercado por homens armados com fuzis. Tudo isso porque cismou que aquele ambiente hostil, porém belo, era ideal para fotografar uma bolsa de viagem. Persistente, também convenceu a força aérea escocesa a fazer um vôo com o único objetivo de compor uma foto do avião por entre a paisagem montanhosa do país, banhada por um lago. Mais uma vez, uma bolsa de luxo dá um toque singular à imagem. São aventuras assim que estão por trás das 25 fotos reunidas na exposição L'oeuvre (A obra), resultado da parceira de 20 anos com a grife Louis Vuitton, iniciada em 1978. Com toda a liberdade do mundo, Larivière, de 67 anos, viajou por aí sugerindo destinos e mensagens para as imagens que fizeram parte da campanha I' âme du voyage, clicadas em lugares tão díspares como China, Tailândia, Patagônia, Nepal, Tibet, Burma e Índia. Em cartaz na Louis Vuitton da Daslu, em São Paulo, a mostra será também exibida na loja LV de Ipanema, de 4 a 7 de julho. - Conheço fotógrafos contemporâneos que desprezam os trabalhos por encomenda porque não consideram arte. Eu, definitivamente, não vejo assim. Sempre fiz o que queria, o que gosto, mesmo trabalhando para uma empresa - considera Larivière, no Brasil pela primeira vez, em entrevista ao JB na Louis Vuitton dos Jardins, em São Paulo. Também responsável por catálogos de grifes como Van Cleef & Arpels, Lanvin, Nina Ricci, Charles Jourdan e Pierre Cardin, o fotógrafo tem obras no acervo do Centro Nacional de Artes Plásticas, na FNAC e no MAM, em Paris. Este ano, expôs no Carrossel do Louvre, em mostra aberta ao público, e em Moscou. Parte desse trabalho foi selecionado para montar L'oeuvre. - Sempre procurei variar, de temas a lugares. Por isso, temos desde fotos de paisagens mais simples até o cometa Halley - exemplifica. Apesar de ser a atividade que o consagrou, a fotografia de moda só foi abraçada pelo artista na década de 70. Ao formar-se na Escola Nacional de Belas Artes de Angers, no sudoeste de Paris, iniciou uma pesquisa sobre movimento, espaço e tempo que durou 10 anos e rendeu um filme de arte e a amizade com artistas surrealistas como o cineasta Chris Marker e os pintores Roberto Matta e Salvador Dalí. A produção Jamais toujours (Jamais sempre) tem como figura central uma bola de golfe. - É um filme sobre sentimentos com animações criadas a partir de fotografias e desenhos surrealistas - explica. O fotógrafo classifica sua obra como autoral e hoje se dedica a projetos "mais pessoais". Gosta de associar fotos de gente a objetos que revelem sua personalidade. Por exemplo, ao identificar o sorriso picante da arquiteta Andrée Putman, resolve pegar do lixo um guardanapo em que a francesa pressionou seus lábios. Monta, ao lado de uma foto dela, uma imagem do guardanapo envolto por pregos. Os hábitos da ex-mulher também não foram poupados em sua nova série. - Ao lado de uma imagem dela, compus fotos de telefone. Porque ela passava o dia todo no aparelho: blá, blá, blá, blá, blá blá!. Os planos de viagens por lugares inusitados e exóticos continuam. Com expressão algo zombeteira e desafiadora, diz que o próximo passo é visitar o espaço. E, depois, Marte, por que não?. A propósito: os homens armados no deserto de Yemen eram, na verdade, militares à procura de bandidos no deserto. E contribuíram para que a equipe de Larivière voltasse a salvo ao hotel. Para orgulho do fotógrafo.
|