11 de junho de 2007
 
Água benta na saliva

Em microssérie que estréia amanhã na TV dirigida por Luiz Fernando Carvalho, e vista pelo 'JB' em primeira mão, Quaderna vira o metapersonagem de Suassuna

Alexandre Werneck* Especial para o JB

Lá pelo meio do terceiro capítulo - ou livro, como prefere a mitologia do programa - de A Pedra do Reino, microssérie que estréia amanhã, às 22h30, na Globo, e vai até sábado, em cinco "livros", Quaderna (Irandhir Santos), o personagem-síntese-da-brasilidade da vez de Ariano Suassuna, dispara, na direção do Magistrado (Cacá Carvalho): "Por motivos esotéricos e litúrgicos, atirei-me na vivência dos calendários astrológico-zodiacais-mouro-cruzado-negro-tapuias de meu catolicismo sertanejo". Não será a primeira vez que o personagem citará sua religião baseada na idéia de joie de vivre tanto quanto na de amor a Deus. Nem será a última que se verá sair de sua boca um adjetivo composto de mais de três palavras. Mas, nesse momento, ele estabelecerá que toda a lógica de sua narração - a do testemunho no inquérito contra ele mesmo - será construída a partir de uma entrega à religião. Ele será boa testemunha de sua própria inocência porque, na hora do crime, lembra-se bem de ter visto, ficou cego. Como São Paulo em sua conversão.

Metáforas religiosas estão espalhadas por toda a obra de Suassuna. Esta e outras. Mas o que mais chama a atenção nesta A Pedra do Reino dirigida Luiz Fernando Carvalho é a maneira como a liturgia é o centro das ações. O Suassuna de Carvalho é gritante. E grita porque o centro da obra do diretor é a palavra. Mais que isso, o culto religioso à palavra. Assim, tudo no programa está operado para um emolduramento da fala. A começar pela cenografia, pródiga e feliz no projeto de construir um deslugar: Taperoá não é uma cidade, é um cenário, um palco abstrato para a declamação.

A seguir, esse emolduramento do que é falado passa por um "universalismo" - travestir Quaderna de D. Quixote, dar vazão ao medievalismo, usar na trilha menos músicas nordestinas e mais música de filmes gregos, macedônios e orientais. Mas o que sintetiza o destaque da oralidade é mesmo a filmagem, cujo elemento mais claro é uma certa "fuga da clareza": assim como em Hoje é dia de Maria, Carvalho opta por uma lente que produz foco em regiões mínimas da imagem, conferindo um tom de um lado onírico, de outro de sublinhamento (pela sublimação): nos closes, vemos sempre os olhos ou a boca em foco, raramente os dois. E isso diz muito sobre o paradigma que atravessará toda a jornada.

O modelo usado para dar vida ao universo quixotesco-macunaímico-anti-modernístico-mediavalista - contaminemo-nos pelas palavras do autor - não é apenas o da declamação. Mais que isso, é o da oração. Todas as operações dramatúrgicas são, no princípio, litúrgicas. Nas cenas, quando um ator fala, não fala para outro - embora isso pareça acontecer. Fala é para o alto. Toda fala é dita como um gozo de êxtase religioso, como "um falar em línguas" bíblico, como um culto à sacralidade do poder criativo da palavra. No universo suassúnico-carvalhiano-palavro-sacralizador, mais importante que a interação é a iteração.

Era assim em Lavoura arcaica, filme de Carvalho, foi assim em Maria e é assim em Pedra do Reino. E neste caso, com uma radicalidade de culto absoluta. Porque, no fundo, Carvalho não foi beber em Suassuna a discussão sobre a modernidade brasileira - que coloca o autor, mesmo com seu viés ideológico monarquista atrapalhando, como um pensador mais arguto que os partidários do "mito da contradição brasileira" que contaminam a sociologia/antropologia nacional. O principal combustível do Suassuna de Carvalho é a saliva como água benta.

Quaderna é, como André, o jovem esmagado pela figura do pai em Lavoura, prenhe de palavra. Por isso, a fala concebida por Suassuna na boca do Magistrado - "O senhor só conta a história desse jeito para ficar bonita, mesmo com prejuízo da verdade" - dita em resposta ao testemunho, no Livro 4, não é tão diferente, em espírito, da fala, criada pelo autor Raduan Nassar, que diz, na boca do pai de André: "Basta! Ninguém nesta casa falará com palavras extravagantes". Porque os dois protagonistas são lugares para o parto de vozes. Para uma criação do mundo no poder do discurso.

E Quaderna o cria - como ficará claro na arrebatadora virada do último livro. O mais impressionante em A Pedra do Reino é a construção lógica da narrativa criada pelo protagonista. Não apenas a narrativa em três tempos - Quaderna criança, Quaderna adulto, Quaderna velho, em uma ordenação que, lá, lembra o triunvirato camelo/leão/criança de Nietzsche. Mas a criação de outros tempos, que se confundem, criando uma temporalidade poética. E poética sobretudo porque construída nos esteios de um lugar de texto oprimido, o da enquete judicial, uma das maiores obsessões metodológico-suassúnicas - Ah, Quaderna!

Está lá no julgamento de Auto da Compadecida, no inquérito de A pena e a lei, nas trocas de A farsa da boa preguiça: sempre nos deparamos com a Justiça, objeto de poder de palavra, de uma gramática que deixa falar apenas quando quer saber e que, quando permite, permite dentro de seus limites. Em oposição, Suassuna coloca sempre o jogo de cintura de um herói... tagarela.

Pois Quaderna é o metapersonagem de Suassuna. É dotado de consciência do poder da palavra e, mais, de vontade literária - de usar a palavra para recriar o mundo. Na microssérie, fortalece-se ainda mais como um meta-Suassuna, para além das origens biográficas do livro - o que assume tom de homenagem e informa por que, não à toa, por exemplo, Quaderna é condecorado como "imortal". Mas, mais que tudo isso, em Carvalho, Quaderna-Suassuna, como de hábito com personagens-autores em adaptações, não "sai do papel". Retorna a ele.

*Alexandre Werneck é jornalista, crítico de cinema e doutorando em sociologia

Na página B3, o escritor Braulio Tavares entrevista Ariano Suassuna