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Monique Cardoso O aumento da procura por cursos livres sobre filosofia, artes e reflexões acerca das mudanças do mundo contemporâneo não deixa dúvida: o carioca, agora, paga para pensar. No final do mês a Casa do Saber completa um ano com fila de espera para diversas palestras. Seguindo a mesma trilha, será inaugurado na terça-feira, com aula-show de José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovsky, o Pólo de Pensamento Contemporâneo, novo espaço do gênero na cidade. O objetivo dos alunos, em geral saídos das classes média e alta, nem sempre é aprender algum conteúdo específico, mas discutir temas interessantes e inteligentes que normalmente não são abordados em casa, no trabalho, nem na mesa de bar. - Nós, cariocas, estamos muito esvaziados, só com o controle remoto da TV na mão - observa o diretor de cursos da Casa do Saber, Leonel Kaz. - Queremos transformar idéias em ação. O indivíduo não freqüenta um curso só para aprender algo. Vai lá para enfrentar. Paga para ser sacudido. E mais: para se sacudir. As mensalidades da Casa do Saber carioca, instalada na Lagoa, não são proibitivas como as da matriz paulistana - jocosamente chamada de Daslusp - que chegam a custar quase R$ 1 mil. Com preços variando entre R$ 340 e R$ 680 (de acordo com a quantidade de palestras, quatro a oito), os cursos acabam atraindo, em geral, gente bem vestida, bem penteada... e que, às vezes, carece - e está à procura - de um choque de realidade. A primeira aula do deputado federal Fernando Gabeira encaixa-se com perfeição nesta definição. O noticiário nu e cru e a conjuntura social e política mastigados por Gabeira deixaram a audiência, que incluía artistas de TV e teatro, com indigestão. Como se ainda fossem novidades o baixo salário dos controladores de vôo, os presos receberem comida estragada na cadeia e os parlamentares gastarem cerca de R$ 1 bilhão só com viagens. Para o professor Gabeira, as pessoas estão buscando mais que conhecimento: - Já caiu a ficha, naqueles que buscam espaços para discussão, de que as pessoas hoje em dia têm de ser conscientes. Aguçar a capacidade de analisar, sobretudo o que ainda não conta com teoria sacramentada, foi o objetivo da psicanalista e empresária da área cultural Ana Lúcia Magalhães Pinto ao criar o Pólo de Pensamento Contemporâneo, o Pop, no Jardim Botânico. O espaço mescla cursos mais objetivos nas áreas de literatura e cinema e outros com títulos um tanto enigmáticos, como Prisão: um manual para cidadãos em liberdade. Mais que ministrar cursos, o Pop, que cobra R$ 240 por quatro aulas, nasce querendo ser um espaço de convivência intelectual. - Até a década de 1970, a troca intelectual era muito intensa e espontânea entre os cariocas - lembra Ana. - Os tempos mudaram. O agrupamento de pessoas diminuiu muito. Percebemos uma volta da necessidade de discutir, pois esse nosso mundo anda muito esquisito. Coordenador do currículo do Pop - que levará para o mesmo espaço o respeitado etnólogo Eduardo Viveiros de Castro, o expert em internet Ronaldo Lemos e o cantor e compositor Fred Martins - o poeta e professor de literatura Eucanaã Ferraz explica que, com tantas mudanças políticas, sociais e tecnológicas, os saberes ficaram abalados. - Os sites de buscas são a cara do nosso tempo, mas estamos sem saber o que fazer com tanta informação - diz o poeta. - O desejo de conhecimento cresceu pois também aumentou a sensação que temos de desconhecimento, mesmo entre os que têm nível superior. Os temas atuais não estão no meio acadêmico.
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