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Rachel Almeida O diretor Augusto Boal é carioca e mora no Arpoador, mas passa a maior parte do tempo viajando pelo mundo para difundir o método teatral criado por ele há mais de 30 anos: o Teatro do Oprimido (TO). Ativa em mais de 70 países, essa prática nada convencional, que mistura teatro e engajamento político, é levada a presídios, instituições psiquiátricas e comunidades diversas por seus curingas, como Boal chama os integrantes de seu grupo. De volta de uma produtiva viagem à Índia, o teatrólogo participa hoje dos debates A teatralidade do humano, no Oi Futuro, no Flamengo, onde discute o tema As novas subjetividades e a criação coletiva. Amanhã, o TO participa, pela primeira vez, de audiência pública na Câmara dos Deputados, em Brasília, onde proporá mudanças legais no sistema penitenciário do país. - Estou revolucionando o teatro - diz Boal, de 75 anos. - Não se pode comparar o teatro que faço, que é inteiramente novo, com o que já foi feito. Não existe nenhum método no mundo que tenha essa extensão. Apesar da repercussão internacional do TO, Boal se ressente ao ouvir no país natal ressalvas sobre o valor artístico de seu trabalho. E não esconde a decepção por não ter recebido resenhas da autobiografia Hamlet e o filho do padeiro, lançada há seis anos. - Meu método é usado no mundo inteiro e, ainda assim, às vezes, me perguntam onde é que eu estou fazendo teatro de verdade - reclama Boal. - Tem muita gente fazendo coisas importantes em teatro, mas o que há de mais avassalador e inovador é o Teatro do Oprimido. É essa a revolução. Integrante do Teatro de Arena, na década de 60, quando criou, com o ator e diretor Gianfrancesco Guarnieri (morto este ano), os célebres espetáculos Arena conta Zumbi e Arena conta Tiradentes, Boal diz ter encontrado seu caminho fora do teatro tradicional. - Passei a vida fazendo esse teatro convencional, mas acabei entrando por um caminho que descobri ser mais rico e necessário - observa. - Então, se me perguntam quando eu vou fazer teatro de verdade, eu respondo: "Se você acha que teatro é montar um grupinho com cinco, seis pessoas, e armar um cenário com uma mesa e duas cadeiras, e ver os atores conversarem sobre problemas psicológicos, eu nunca voltarei a fazer teatro". No mês passado, Boal foi à Calcutá, na Índia, para prestigiar a iniciativa do grupo Jana Sanskriti, que fundou a Federação Indiana de Teatro do Oprimido. Na ocasião, participou de uma marcha que reuniu mais de 12 mil pessoas de várias regiões. No dia 14, o vídeo da viagem será apresentado na sede do grupo, na Lapa, quando Boal vai expor suas experiências no país. - A federação foi formada por 37 organizações populares: de camponeses, operários, estudantes, mulheres - detalha. - São pessoas que adotaram o Teatro do Oprimido como forma de discutir seus problemas. O curioso é notar que esses problemas são sempre os mesmos. Desemprego, violência contra a mulher, preconceito, saúde precária, concentração de renda... Em Brasília, enfocará o tema Teatro Oprimido nas prisões, trabalho de objetivo multiplicador realizado com agentes penitenciários. Suas propostas legislativas surgiram em eventos públicos e fóruns estaduais promovidos ao longo do projeto. - No Rio Grande do Norte já conseguimos que as presas homossexuais passassem a ter direito à visita íntima - exemplifica o curinga Geo Brito. - Agora, pedimos a criação de uma comissão formada por presos, familiares e funcionários das prisões, e a criação de uma creche para as presidiárias que não têm com quem deixar seus filhos. Boal admite que a atividade como dramaturgo pode ter ficado em segundo plano, mas diz que ela nunca chegou a ser esquecida. - Agora mesmo, em Lisboa, em fevereiro, vai estrear uma peça minha chamada Herança maldita, que comecei há uns quatro anos e terminei esta semana, com direção de Helder Costa - adianta. - É sobre o Rio de Janeiro. Curiosamente, vai ser montada em Portugal. É uma peça até bem convencional. Com cenário único, seis personagens, figurinos modernos. Gostaria muito que um diretor carioca encenasse. Uma vez o Gilberto Gil disse uma coisa que eu, descaradamente, copio: "Existem muitas formas de se fazer música popular brasileira, eu prefiro todas". Sou assim com o teatro.
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