03 de dezembro de 2006
 
"Cultura para o Rio é como a irrigação para o Nordeste"

Entrevista: Luiz Paulo Conde

PróximoNos anos 90 o arquiteto Luiz Paulo Conde entrou na vida pública e tornou-se conhecido por um dos maiores bota-abaixo, ou bota-acima, que a cidade já viu depois do prefeito Pereira Passos (1902-1906). Foram oito anos de Rio Cidade e Favela-Bairro. Agora, indicado para assumir a Secretaria de Cultura do Estado pelo governador eleito Sérgio Cabral, Conde disse ao JB, em sua casa, no Itanhangá, que não pretende construir nada. Mas quer reformar os teatros estaduais, que considera em más condições. Ladeado de obras de arte popular e de uma invejável coleção de DVDs de filmes e óperas, o novo secretário expôs um plano que deve deixar a classe artística sob forte expectativa: dividir o custo da meia-entrada com os produtores culturais através de subsídio estadual. Segundo Conde, porém, o dinheiro para a pasta de Cultura nunca é suficiente. Por isso não espera contar em 2007 com os R$ 300 milhões anuais prometidos por Cabral. E pediu mudanças na Lei do ICMS: "Ela é pouco democrática". (Monique Cardoso)

Sua figura política está associada a obras. Por isso, muita gente ficou sem entender por que o senhor foi indicado para a Secretaria de Cultura...

Quando fui prefeito, minha administração sempre esteve ligada à arte. Fizemos diversas exposições sobre o Rio, como A paisagem carioca. A Rio gravura ocupou todos os museus. Sou arquiteto e sempre fui ligado à história da arte. Minha mulher é gravadora, sou sobrinho do (compositor) Lorenzo Fernandes. Na secretaria, acredito que o melhor é pôr para funcionar bem aquilo que já existe, em vez de ficar inventando coisas novas. Sou um consumidor ativo de música, cinema, exposições.

O senhor passou os últimos quatro anos na Secretaria de Meio Ambiente. Está a par da atual situação da cultura no Estado?

Minha irmã (Cecília Conde) é subsecretária de Cultura no interior fluminense. O Rio tem um grande equipamento cultural. São vários teatros, museus, bibliotecas. Pretendo trazer de volta para a pasta de Cultura as escolas de arte do Estado (Villa-Lobos, de música; Martins Pena, de teatro; e Maria Olenewa, de dança), que hoje estão com a de Ciência e Tecnologia.

Os equipamentos culturais estão concentrados na capital e os municípios são pobres em cultura. Não por falta de espaços adequados. A efervescência do Centro e da Zona Sul não chega até lá. Falta circulação?

O Rio é o pólo da região metropolitana. Temos que criar elementos de atração para a periferia. Há muito patrimônio histórico em Caxias, Nova Iguaçu, São Gonçalo. Construções antigas, fazendas lindíssimas, que poderiam ser reabilitadas e transformadas em locais de atividade cultural. Com poucos recursos, se pode preservar a memória desses locais.

Como o senhor avalia o atual mecanismo de incentivo à cultura estadual, a Lei do ICMS?

A Lei do ICMS (dedução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços de parte do valor investido) hoje é pouco democrática, privilegia produções da capital. Quando for dado o incentivo da lei a um espetáculo, deve-se instituir a obrigatoriedade de ele circular pelo interior e pela Baixada. São R$ 60 milhões anuais, se fez muita coisa boa com a lei de ICMS. Só que tudo o que é feito sempre pode ser revisto.

Qual a prioridade de sua gestão?

A geração de emprego e renda pela cultura. A produção também está carente de formação, em iluminação, cenotécnica etc. Por isso, é preciso haver demanda no setor e fazer as atrações circularem. Se houver mais espetáculos, vamos poder formar mais gente.

Os teatros e museus estaduais não estão em boas condições. Pretende fazer obras?

Todos os equipamentos culturais precisam de reparos, estão em mau estado, como o Teatro Villa-Lobos e o Museu do Primeiro Reinado. Ano passado, liberamos parte da verba, mas sempre falta dinheiro.

Esse dinheiro tem que sair da Secretaria de Cultura, que conta com poucos recursos?

O orçamento é apertado e temos um gasto fixo grande com o Theatro Municipal. Com o corpo de baile, o coral, a orquestra. Mas gastamos muito mais com a cultura do que a Prefeitura do Rio. O telhado do Museu do Primeiro Reinado está sendo reformado. Em Casimiro de Abreu, no interior, o museu também está em obras. A cobertura do Municipal está sendo examinada...

O governador eleito Sérgio Cabral disse que destinaria R$ 300 milhões por ano para a cultura. Esse valor é real?

Eu acho que ele vai poder assumir, mas não nesse ano (2007), né? O primeiro ano vai ser de contingenciamento. Todo início de governo é assim. Mas ele vai dar prioridade à cultura. E por quê? Porque cultura para o Rio é como a irrigação para o Nordeste. O povo do Rio é o que lê mais jornal, é o que compra mais livros, vê mais filmes.

Já escolheu os diretores dos espaços culturais? Helena Severo, hoje à frente da Fundação Theatro Municipal, foi secretária de Cultura quando o senhor era prefeito. Pretende mantê-la no cargo?

Não vou adiantar nomes. A Helena não ficou durante todo o mandato, ela deixou o governo para trabalhar com o Edemar Cid Ferreira. Teve iniciativas boas, como os concertos a R$ 1. O João Guilherme Ripper também fez um excelente trabalho à frente da Sala Cecília Meireles.

Como vê a política de Anthony e Rosinha Garotinho de promover espetáculos a R$ 1?

Fiz isso quando era prefeito. Abria o Teatro Carlos Gomes, todos os domingos, com ingressos a R$ 1. Antes do Garotinho. Mas a questão do acesso é fundamental. Uma coisa que temos que rever é a meia-entrada. Os produtores, em todas as áreas, não comportam. Aí dobram o preço do ingresso.

Esta é a maior reclamação do público: os ingressos são caros. Há algum projeto de cota, para ninguém sair perdendo?

O Estado precisa subsidiar a meia-entrada, como já acontece com as passagens de ônibus. Se o ingresso custa R$ 100, a idéia é o espectador pagar R$ 50 e o Estado, R$ 25. O produtor receberia, então, R$ 75. O financiamento para o público não pode ficar só a cargo do apresentador do espetáculo. Ainda vamos discutir como colocaremos isso em prática, ainda falta formatar.

A Alerj (Assembléia Legislativa do estado do Rio de Janeiro) votou esta semana resoluções sobre o Fundo Estadual de Cultura. Os R$ 300 milhões não passariam por este fundo?

Já existe o fundo, mas falta enchê-lo! A Cultura é uma pasta que sempre reclamou e sempre vai reclamar da falta de recursos. E nunca vai haver muito dinheiro. Nunca. O importante é que ele seja bem aplicado. Quando o governo coloca um dinheiro, as pessoas têm de prestar contas, dizer o que fizeram. Vou ser muito rigoroso.

O senhor já começou a ouvir a classe artística?

Estou me reunindo com todos os setores. Já falei com o pessoal de teatro - Paulo Betti, Aderbal Freire-Filho, Antônio Pedro, Cristina Pereira... De música também. Esta semana falo com o pessoal de cinema. Quero ouvir idéias e opiniões de fora para dentro. Tive um encontro com o pessoal do Encontrarte, da Baixada.

Todo arquiteto é também um artista. O senhor pinta ou toca algum instrumento?

Meu irmão tirava tudo de ouvido. Eu ficava com uma inveja... Não conseguia tirar nada, desanimei e parei de estudar piano. Hoje, a minha vingança foi virar um apreciador de música violento. Mas é claro que nunca se sabe o quanto se gostaria.