02 de agosto de 2007
 
Choque no cérebro acorda consciência

Juliana Anselmo da Rocha

Graças ao implante de uma espécie de marcapasso que envia sinais elétricos ao tálamo - região cerebral que coordena os estados de sono e vigília, um homem em estado de consciência mínima há seis anos recuperou a capacidade de mastigar e engolir comida, assistir à TV, gesticular e conversar com a família. O "milagre médico", como classificou a mãe do paciente de 38 anos cuja identidade é mantida em sigilo, foi orquestrado pelo neurocientista Nicholas Schiff, do Centro Médico Weill Cornell, em Nova York, nos Estados Unidos.

- Nossa expectativa com a cirurgia era aumentar a taxa de ativação dos neurônios e melhorar a resposta celular por todo o cérebro - explica Schiff. - Com o estímulo, o paciente apresentou ganhos graduais, dos quais alguns foram mantidos mesmo sem o pulso elétrico.

Antes do trauma, o homem colecionava revistas em quadrinhos, gostava de desenhar e ver filmes de super-heróis. Depois de sofrer um assalto em 1999, passou cinco anos em casa sem chances de recuperação. Não era capaz de se comunicar ou comer sozinho. O estado de consciência mínima no qual estava imerso caracteriza-se pela alternância aleatória de momentos de inconsciência com de baixa resposta ao mundo externo.

Em 2005, seus pais concordaram com o tratamento experimental. Surgiram resultados imediatos: ele estava alerta e conseguia acompanhar vozes com a cabeça. Hoje, é capaz de beber de um caneca, falar 16 palavras e assistir à televisão.

- Ainda é cedo para especular quais pacientes serão beneficiados com o estímulo elétrico - completa Schiff. - Faremos mais testes em outros 12 indivíduos.

No procedimento, um aparelho semelhante ao marcapasso cardíaco é implantado no peito do paciente. Fios escondidos sob a pele sobem pelo pescoço, atrás da orelha e entram em uma perfuração no crânio, conduzindo o estímulo elétrico gerado à área escolhida no cérebro.

Fernando Cendes, professor do departamento de neurologia da Unicamp, observa que a maior inovação do estudo americano está na ligação evidente entre a melhora e o estímulo elétrico.

- Como o marcapasso foi mantido ligado por períodos alternados durante seis meses, temos certeza de que não foi uma melhora natural, mas provocada pelo tratamento - diz.

A técnica também já foi empregada com sucesso para pacientes com epilepsia e mal de Parkinson. No caso da doença degenerativa, o estímulo é feito em uma área diferente do tálamo para conter os tremores. O marcapasso, porém, não é deixado em definitivo no paciente. Na epilepsia, os eletrodos são ligados ao nervo vago, no pescoço.

O pesquisador faz uma ressalva: os ganhos obtidos com a técnica dependem da área lesada e nem todas as pessoas em estados de consciência alterada devido a danos cerebrais vão melhorar.

- A recuperação do tônus cerebral depende das áreas onde ainda existe alguma reserva de atividade neuronal - avalia Cendes. - No caso reportado por Schiff, os médicos haviam registrado o funcionamento intacto de algumas áreas ligadas à cognição e à fala.

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